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Opinião
Editorial Desafios para o Enem

Publicado em: 04/11/2019 03:00 Atualizado em: 04/11/2019 08:33

Ontem ocorreu mais uma edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mais de 5 milhões de estudantes se inscreveram para a prova. Eles se encontram nos quatro cantos do Brasil — de norte a sul, de leste a oeste, de metrópoles ou urbes distantes às quais só se chega com a associação de diferentes tipos de transporte: aéreo, terrestre e fluvial.

Criado em 1998, tinha objetivo claro — avaliar a qualidade do ensino ministrado na fase intermediária entre o fundamental e o superior. O resultado serviria para corrigir rumos. Falhas eventualmente existentes seriam reparadas e, com isso, se alcançaria nível de excelência cada vez mais elevado.

O salto se impunha para que o antigo colegial deixasse de funcionar como ponte a ligar o fim de um ciclo ao começo de outro. Aos poucos, porém, o Enem mudou de papel. Em vez de avaliar o ensino médio, passou a substituir o vestibular, teste duramente criticado porque, focado no conteúdo, estimulava a decoreba em vez da versatilidade do conhecimento.

Em outras palavras: levava vantagem não quem desenvolvera a habilidade em diferentes competências, mas quem tinha memória privilegiada. A troca foi um passo adiante. Outros vieram. Entre eles, dividir as provas em dois fins de semana. O intervalo maior possibilita a recuperação de forças, o necessário relaxamento e o desempenho mais justo.

Mais avanços se impõem. Um deles: a extensão das provas. Cinco horas e meia no primeiro domingo e cinco horas, no segundo, exigem preparo físico digno de maratonista. Muitos ficam no caminho vencidos pelo cansaço, não pela incapacidade de fazer frente aos desafios aprendidos nas salas de aula. Exaustos, desistem. Com isso, perdem-se talentos por que o país tanto anseia.

Outro: a clareza dos enunciados. Não raro, depois da leitura de longo texto, o candidato precisa atender a uma ordem incompreensível. Na tentativa de inferir o que lhe pedem, perde tempo sem chegar a lugar nenhum. Serão necessários tantos e tão extensos textos —nem sempre com boa redação — para formular uma ou duas questões? É pergunta que se fazem professores, estudantes e demais interessados no assunto.

O Ministério da Educação anunciou mudança substantiva para o ano que vem. Em 2020, começará a aplicação do Enem digital. Será feita por etapas. Começará com 10% dos estudantes. Até 2026, atingirá a totalidade da clientela. Trata-se de passo inevitável. Além de contemporâneo, exigirá logística mais simples e menos onerosa.

É importante aproveitar a guinada não só para passar do papel à tela. Repetir o mais do mesmo é frustrar expectativas já esgarçadas por sucessivos fracassos. Espera-se um salto de qualidade. Exame mais racional e cobranças claras devem dialogar com as competências do século 21.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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