Diario de Pernambuco
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Opinião
Conseguimos nos livrar dos plásticos?

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 11/11/2019 03:00 Atualizado em: 11/11/2019 09:34

Em meu artigo da semana passada neste Diario de Pernambuco, comentei matéria do Financial Times sobre a necessidade de romper nosso vício em plástico. O jornal conclui que precisamos mudar nossos hábitos, mas também todo o ciclo produção-consumo-descarte. Segundo o Ocean Conservancy, vão acabar nos oceanos cerca de 8 milhões das 87 milhões de toneladas de plásticos usados anualmente em embalagens. Para o nosso Ministério do Meio-Ambiente, uma sacola plástica pode levar mais de 100 anos para se decompor.  Entre 500 bilhões e 1 trilhão de sacolas plásticas são consumidas em todo o mundo anualmente. No Brasil, cerca de 1,5 milhão de sacolinhas são distribuídas por hora. Centenas de vacas, um animal sagrado na Índia, lá morrem todos os anos por ingestão de sacos plásticos. São milhares as tartarugas que morrem sufocadas ao confundirem sacolas plásticas com águas-vivas, sua fonte básica de alimento. Mesmo na África do Sub Saara, onde o consumo é escasso, pude testemunhar o horror das sacolas plásticas levadas pelo vento aos locais os mais longínquos estrada a fora.
 
O plástico é leve, versátil, barato e durável. Por isso o seu vasto uso em embalagens permitiu a redução de custos de fabricação e de transporte. E aumentou a durabilidade dos produtos nas prateleiras dos supermercados. Esse sucesso, todavia, veio com o seu paradoxo.  No agregado e no longo prazo trouxe externalidades negativas. Os danos ambientais à população atual fizeram soar um alerta sonoro. Crescem com a expansão da população e do consumo à medida que os países vão se desenvolvendo e incluindo mais pessoas no mercado de consumo. Por isso, todos sabem que o atual modelo de consumo é insustentável. Os rios, canais, lagos, oceanos e matas, com toda a diversidade de espécies que abrigam, vão se tornando infestados de resíduos plásticos. Todos ficamos assustados com o recente vazamento de óleo de navio pirata que poluiu as praias do nosso Nordeste. A reação da população foi exemplar. Diante da lentidão e omissão dos governos estadual e federal, as pessoas foram à praia para recolher o óleo maldito. É chegada a hora de também olhar para a maldita invasão do plástico em nossas águas, matando animais e plantas aquáticas. Plástico que, aliás, é derivado do petróleo.
 
Não dá mais para esperar que apenas os outros adotem um outro modelo de consumo. O comportamento do ‘caroneiro’ não está com nada. O alarme ambiental em que vivemos pede que cada um de nós assuma suas responsabilidades. Hoje existe um movimento mundial de consumidores contra a embalagem plástica de uso único. Multiplicam-se os programas como o dominical da Rádio Nacional da Espanha onde se difundem soluções criativas para nos livrar da inundação dos plásticos. No Reino Unido, há empresas como a Loop, que desenvolveram um novo modelo de compras através de acordos com marcas conhecidas como Haagen-Daz, Dove e Crest. E aí são oferecidos produtos em embalagens duráveis, reutilizáveis e às vezes até decorativas. Substitui-se o modelo antigo de consumo em que tudo é jogado fora imediatamente. Também temos de combater o consumismo exacerbado por onde mergulhamos por comodismo e falta de espírito crítico.
 
Chegou o momento de rever conceitos. Para não acabarmos naufragando empacotados e plastificados em nosso próprio consumo. Trata-se de pré-condição mesma para que todos os 7,7 bilhões de habitantes do planeta sejam incluídos em um padrão básico de consumo responsável. Nesse processo de mudança comportamental, podemos incorporar alguns hábitos saudáveis, que ajudam a reduzir a poluição plástica. Aqui segue uma pequena lista que não exige maiores sacrifícios: 1) não usar canudos, pratos e talheres de plásticos descartáveis; 2) comprar alimentos em sacolas e recipientes reutilizáveis; 3) fazer compras a granel de produtos como arroz, massa, feijão, grãos, cosméticos e detergentes, portando seu próprio recipiente; 4) usar recipientes maiores para comprar produtos como sabão, detergente, água sanitária e outros líquidos e distribuí-los para recipientes menores em casa (refill); 5) comprar os alimentos inteiros sem estarem seccionados e ensacados; 6) utilizar para os bebês as fraldas de pano modernas ecológicas, que não contêm plásticos; 7) evitar comprar água de garrafa plástica; 8) fazer sucos em casa; 9) eliminar o uso de balões em festas infantis; 10) adotar um carrinho de feira; e, 11) evitar embalagem excessiva de alimentos.

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