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Opinião
Com a palavra, as crianças de Pernambuco

Simone Santana
Deputada estadual, vice-presidente da Alepe e coordenadora da Frente Parlamentar da Primeira Infância

Publicado em: 22/11/2019 03:00 Atualizado em: 22/11/2019 05:30

Imagine o cenário: auditório da Assembleia Legislativa lotado, plateia atenta ao debate. Nas cadeiras da frente, deputadas e deputados em silêncio, concentrados. Diante dos parlamentares, no lugar de honra e com a palavra, estão meninas e meninos entre 7 e 11 anos. Em cena rara nos espaços públicos de poder, são as crianças que ditam as prioridades, conduzem a reunião e fazem os encaminhamentos. Na pauta, a defesa de seus direitos.

Pode parecer utópico, mas a experiência já é realidade em Pernambuco. Em novembro, quando se celebrou os 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, a Frente Parlamentar da Primeira Infância, em parceria com a Prefeitura do Recife, instalou o primeiro Conselho de Crianças de Pernambuco. O grupo é formado por 14 garotas e garotos, eleitos em suas escolas para levar o olhar da infância a nós, adultos com mandatos eletivos.

Animados e cientes de sua responsabilidade, os membros do Conselho chegaram à Alepe com brilho nos olhos e energia de sobra. Tinham reunido suas propostas, dúvidas, demandas e críticas.

Falaram do preço do ônibus e de sua preocupação com o maltrato aos animais. Contaram da apreensão com o sistema de saúde e com o futuro do planeta. Mencionaram temas que a gente grande pensa que não passam pelas suas cabeças de criança, como suicídio, assédio e abuso de drogas.

Chamou a atenção como a maioria dos temas trazidos pelo nosso Conselho, apesar de intimamente ligados à realidade dos pequenos, na verdade permeava a compaixão com os adultos. Queríamos saber como seria uma cidade ideal para as crianças, e elas nos revelaram um cuidado genuíno com os homens e mulheres que as rodeiam. Professores, mães, avós, irmãos. Até mesmo conosco, parlamentares (quiseram saber se não era estressante participar de tantas reuniões).

Saímos reflexivos e impactados deste encontro com nossos conselheiros, que estiveram à altura do título. É que aqueles meninos e meninas nos apontaram uma lúcida percepção não apenas de suas realidades, mas também sobre a sociedade adoecida em que vivemos. A lição de empatia vem de uma sutileza muitas vezes imperceptível aos olhos condicionados dos adultos. Ouvir o que as crianças têm a dizer me parece um antídoto infalível para o vírus da intolerância.

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