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Opinião
Alarme ambiental

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 04/11/2019 03:00 Atualizado em: 04/11/2019 08:28

De onde menos se espera é que não vem nada mesmo. Correto? Em termos. Pelo menos quanto ao meio-ambiente, sinais estão vindo de alguns atores conservadores que até há pouco achavam que a questão ambiental era coisa de lunáticos contrários ao progresso.

Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, tem fortuna de US$ 100 bilhões. Sua principal empresa, a Amazon, cresceu vendendo livros com operação inovadora de logística. Tornou-se uma ‘empresa de tudo’. Vale US$ 1 trilhão. Não satisfeito em dominar o mundo, Bezos criou um outra, a Blue Origin. Para disputar a conquista do espaço com pioneiros na tecnologia dos foguetes, como Elon Musk. Além da sua constelação de satélites, a Blue Origin concentra-se em criar ‘estradas para o espaço’, a fim de tornar comum a viagem espacial. Fiel à preocupação original do seu fundador com as questões de logística, a nave lunar Blue Moon, planejada para 2024, tem o objetivo de demonstrar como o envio de equipamentos e produtos para a Lua poderá ser rotineiro e confiável em futuro próximo. Como hoje a Amazon Prime faz com nossas encomendas em qualquer lugar do mundo. Bezos é justamente criticado por gerir empresas que não pagam os impostos que deveriam. E que pagam muito mal os trabalhadores. A maioria dos 600 mil empregados da Amazon recebe pouco mais que o salário mínimo. Ele é descrito pelos próximos como uma pessoa incapaz de empatia. Por isso, não seria de esperar que o investimento na Blue Origin tenha por ele sido justificado pela preocupação com a sustentabilidade do meio-ambiente e da vida de outras pessoas. Que, ao seu ver, vão precisar de recursos espaciais já em futuro próximo. Como expresso na missão da sua mais nova empresa: ‘A visão da Blue Origin é a de um futuro em que milhões de pessoas viverão e trabalharão no espaço. A fim de preservar a Terra, nosso lar, para os netos dos nossos netos, temos que conquistar o espaço para dele extrair ilimitadamente recursos e energia’.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson, do Partido Conservador, acaba de suspender a extração de petróleo e gás na Inglaterra pelo método do fracking. Que consiste em bombardear as rochas com água, areia e produtos químicos para liberar óleo e gás de xisto. Com intenso uso da nova tecnologia, os EUA e o Canadá tornaram-se autossuficientes. O Governo de Boris Johnson até há pouco era fervoroso defensor do fracking. Estima-se que o total de gás de xisto extraível por essa técnica garantiria a demanda de gás do país por mais de 40 anos. Há pouco, na região de Lancaster, registraram-se fortes tremores de terra que abalaram as casas de várias comunidades. Um relatório da Agência de Óleo e Gás acaba de reconhecer que a causa pode ter sido o uso da técnica. Diante do relatório, da mobilização da comunidade e das eleições, o governo de Boris Johnson deu uma guinada no assunto. Embora sua plataforma ainda esteja aquém da do Partido Trabalhista nas metas ambientais, o Partido Conservador cogita antecipar para 2035 a proibição de venda de novos veículos a combustível fóssil. E promete para 2050 a plena realização do objetivo de uma economia com emissão líquida zero de carbono. O Partido Trabalhista, a seu turno, já se comprometeu em trazer para 2030 tanto a venda exclusiva de carros elétricos como a meta de emissão líquida zero. As eleições acontecerão no dia 12 de dezembro. O Brexit domina o debate. Mas as pesquisas de opinião mostram que a preocupação ambiental será um dos maiores vetores do comportamento do eleitor. Por isso, tanto os conservadores quanto os trabalhistas estão apresentando propostas ousadas para o meio-ambiente.

A edição do Financial Times desse fim de semana trouxe matéria extensa sobre o objetivo de eliminar o uso do plástico em nosso dia a dia. Levanta a questão sobre o que fazer para impedir que, das 87 milhões de toneladas anuais de plásticos usados em embalagens, cerca de 8 milhões de toneladas continuem indo parar nos oceanos. O jornal, que é visto como um poderoso veículo conservador da alta finança, assume bandeiras que até então estavam restritas aos movimentos ecologistas. Enquanto isso, em Pindorama...

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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