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Opinião
Editorial Uma ajuda bem-vinda

Publicado em: 16/10/2019 03:00 Atualizado em: 16/10/2019 08:37

O fantasma das tragédias provocadas pelo rompimento das represas de rejeito de minério em Mariana e Bumadinho, em Minas Gerais, com mais de 250 mortos e de 19 pessoas que continuam desaparecidas — para o desespero de seus familiares —, continua rondando diversas comunidades em áreas de mineração de todo o país. As feridas dos dois desastres não cicatrizaram por completo, mas merecem total apoio da sociedade medidas como a tomada pelas autoridades federais e estaduais para enfrentar o problema. A mais recente foi a chegada ao território mineiro de uma missão dos Países Baixos para avaliação das estruturas em maior situação de risco e a transferência de conhecimento e tecnologia para os especialistas brasileiros.

Os engenheiros holandeses do Time de Redução de Riscos dos Países Baixos (Holanda, Curaçao, Aruba e São Martinho) farão uma análise detalhada das barragens em estado crítico e, mais importante, treinarão agentes e fiscais da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema). Assim, terão o expertise para poder agir antes da ocorrência de novas catástrofes. Na Holanda, existe uma extensa rede de diques que permitem a ocupação de um terço das terras que se encontram abaixo do nível do mar. A necessidade fez do país um dos melhores operadores mundiais em barramentos.

No Brasil, o grande problema é a falta de pessoal tanto em números quanto em especialização para monitorar o expressivo número de barragens espalhadas pelo país, muitas delas sem qualquer tipo de fiscalização. A própria ANM reconhece que existem, hoje, dezenas de represas que podem se romper, provocando outras tragédias ambientais e sociais. De acordo com a agência, são mais de 50 estruturas sem qualquer atividade por falta de informações de estabilidade ou por apresentar índices de segurança abaixo dos previstos pela legislação. A maioria delas se situam em Minas, Bahia, Alagoas e Rio Grande do Norte.

Juntamente com as medidas adotadas pelas empresas mineradoras para desativar as barragens em maior risco — muitas na Região Metropolitana de Belo Horizonte —, a intervenção da equipe estrangeira servirá como exemplo prático para os fiscais e agentes públicos, que deverão transferir para outros estados os conhecimentos adquiridos. O trabalho apontará qual represa é mais vulnerável para que haja intervenção reparadora nela. A iniciativa de pedir auxílio aos holandeses partiu do Ministério das Minas e Energia e várias missões semelhantes já foram enviadas para outras partes do mundo. Espera-se que haja, sempre, novas ações de contenção e de desativação de barragens instáveis, até que elas não ofereçam mais perigo para a população.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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