Editorial Tiros em Hong Kong

Publicado em: 03/10/2019 03:00 Atualizado em: 03/10/2019 08:30

De um lado, festa. Pequim comemorava os 70 anos da China comunista com desfile faraônico. Diante do líder Xi Jinping, sob os retratos de Mao Tsé-tung, cerimônia na Praça Tiananmen exibiu poderio militar com exibição de tropas, tanques, mísseis intercontinentais e mísseis que incorporam planador supersônico. Mais de 100 mil pessoas repassaram a história e a cultura nacionais sob o prisma do partido. Exaltaram feitos científicos, econômicos e desportivos.

De outro lado, manifestações. Dezenas de milhares de honcongueses saíram às ruas para protestar contra Pequim. Prometiam um “dia de cólera”. O ato se repetiu pela 17ª semana consecutiva. Mas, pela primeira vez na história da ex-colônia britânica, agentes da polícia feriram à bala uma pessoa. Jovem secundarista de 18 anos foi atingido por um tiro no peito. Escapou. Mas a agressão acendeu a luz vermelha.

Trata-se de escalada nos confrontos. Há quatro meses, multidão de rapazes e moças se organizam e tomam ruas e lugares estratégicos da cidade. O aeroporto foi um dos alvos. Ocupado, precisou atrasar ou suspender voos. A bandeira por eles hasteada tem um lema — democracia, que a população vê ameaçada com a crescente vigilância do continente sobre a ilha.

Repressor, o regime chinês parece incapaz de conviver com a diferença. Com recursos eletrônicos sofisticados, entre os quais a identificação facial, Pequim ameaça a sociedade. Para não serem captados pelas câmeras, populares se protegem com guarda-chuvas. Os manifestantes fazem o mesmo. Daí por que as passeatas são conhecidas por “movimento dos guarda-chuvas”.

A gota d´água para a explosão do descontentamento foi o projeto de lei da extradição. Proposto pela chefe do Executivo, Carrie Lam, o texto permitia a extradição para a China e, claro, a submissão às regras ditatoriais de Pequim. Carrie Lam, na esperança de conter o movimento, interrompeu a tramitação da proposta. Depois a arquivou. Mas não conseguiu acalmar os ânimos, que cresciam em exaltação e adesões.

Em resposta, a repressão ganha força e violência. Tornou-se rotina o uso de gás lacrimogênio, balas de borracha, bastões para espancamentos. Temia-se o que agora se concretizou e pode se agravar como ocorreu em 1989 na capital chinesa. Na mesma praça em que desfilou o poderio bélico da segunda potência do planeta no 70º aniversário do regime, jovens, que clamavam por democracia, foram duramente reprimidos por tanques e tropas. Poucos apostam em desfecho semelhante. A maioria vê incógnitas pela frente.

O problema reside na história da província chinesa. Em 1841, Hong Kong passou para o domínio inglês e se transformou em importante centro financeiro mundial. Voltou às origens em 1997. Um acordo estabeleceu status especial para a província, conhecido por “um estado, dois sistemas”. Segundo a Constituição então firmada, a ilha deve ter alto grau de autonomia em todas as esferas — língua, passaporte, internet livre. As únicas exceções são as relações exteriores e a defesa militar. O acerto ficou no papel. A realidade tem outro enredo.

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