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Opinião
Sobre a leitura literária na escola

Arantes Gomes do Nascimento
Escritor, articulista, professor da Educação Básica em Pernambuco e municipal em Caruaru, mestrando em Ciências da Educação e membro fundador da Academia Palmarense de Letras %u2013 APLE

Publicado em: 29/10/2019 03:00 Atualizado em: 29/10/2019 09:04

Quantas vezes nos questionamos sobre a prática efetiva da leitura literária em sala de aula? Para responder a esse questionamento apresento, mesmo que resumidamente, uma proposta para o trabalho com a leitura literária dirigida em Língua Portuguesa no Ensino Fundamental anos finais, cujo objetivo é possibilitar a formação do sujeito leitor, especialista no ato de ler.

Reconhecendo a escola como um ambiente para o desenvolvimento do gosto pela leitura, faz-se necessário que ela se encontre em primeiro plano dentro dos projetos escolares cuja ação pode resultar o sucesso escolar. Porém, vale destacar que pesquisas recentes sobre leitura do sociólogo francês François de Singly revelam que há uma dissociação entre o fato de gostar de ler e o fato de ser reconhecido como bom aluno no ambiente escolar.

Nesse sentido, é importante destacar as várias possibilidades da leitura literária dirigida em sala de aula, sendo, portanto, uma falácia epistemológica a afirmação da existência de uma forma específica de leitura literária sem promover e incentivar essa prática quotidianamente. Pois entendemos que as dificuldades de ordem cognitiva, fonológica e/ou prosódica - só para citar algumas -, apresentadas pelos estudantes, quando estão diante da leitura, podem ser (re)avaliadas e (re)direcionadas. Daí a necessidade de uma nova postura que privilegie a prática da leitura literária na escola, considerando não somente as avaliações externas como o SAEB e SAEPE, - no caso do Pernambuco, mas também oportunizar aos estudantes um contato direto com obras, escritores e os respectivos gêneros textuais que adquiriram notoriedade na arte em escrever.

Nessa perspectiva, destaco o filósofo grego Aristóteles, séc. III a.c., quando dividiu a gramática em duas partes: nome e verbo. Pois entendemos que há duas transitividades gramaticais para o processo com a leitura literária em sala de aula. Uma para o substantivo Leitura, que não deve estar desacompanhada de seu complemento nominal: o próprio ato de ler, e a outra, para o verbo Ler, o que se deve ler: um conto, poema, carta, propaganda, um manual de instruções. Pois não se lê um poema quântico de Adriano Sales da mesma maneira que um editorial de um jornal, também não se lê um romance regionalista de Juarez Carlos com os mesmos objetivos que se lê uma propaganda. Além disso, não se lê uma crônica trinca de Vimar Carvalho do mesmo jeito e com o mesmo objetivo que se lê a entrevista de um político, assim como não se lê um conto de Artur Griz com os mesmos objetivos e formas que um verbete em dicionário ou um manual de instruções. Portanto, é preciso ter práticas efetivas e concretas de leitura literária em sala de aula para apreciação do texto, arquitexto, contexto e o leitor, cuja interpretação estará ligada a um plano orientado por princípios de verossimilhança.

Nesse ponto de vista, a leitura literária dirigida corresponderia às práticas sociais de leituras associadas a um grupo de objetos: os textos literários, apresentados em livros de contos, crônicas, poesias e romances, proporcionando ao estudante um contato “privilegiado em beber na fonte” das obras dos autores. Assim o estudante estará preparado para dar conta dos aspectos específicos dos textos em determinados contextos, assumindo uma postura crítica reflexiva durante o ato.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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