Diario de Pernambuco
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Opinião
Resistir para a história

Rogério Robalinho
Diretor da Cia de Eventos, empresa realizadora da Bienal de Pernambuco

Publicado em: 15/10/2019 03:00 Atualizado em: 15/10/2019 09:16

Com a realização da XII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, encerrada, no último domingo (13), chegamos ao final de 2019 como um evento consolidado de incentivo à leitura e de valorização da produção literária local e nacional. Um evento que já faz parte do calendário do nosso estado, através da Lei estadual 14.536/11, e que se configura como o terceiro do Brasil e o maior do Nordeste.  A Bienal compreende o gosto pela produção e o consumo da arte literária como um processo contínuo de aprendizado, reforçando o aspecto pedagógico de construção do ser humano, em que podemos afirmar que sem educação, sem leitura, não há transformação entre os povos, não há transformação de uma nação.

Realizada no Centro de Convenções, em Olinda, a Bienal recebeu, durante dez dias, mais de 100 mil visitantes, que tiveram à disposição uma programação com mais de 120h de atividades, para pessoas de todas as faixas etárias, em uma edição que homenageou o poeta e ativista Solano Trindade (in Memorian) e o reconhecido romancista Sidney Rocha. Na ocasião, foram lançadas cerca de 140 obras com a participação de mais de 90 escritores e palestrantes, que conversaram diretamente com o público. E mesmo na atual crise do mercado editorial brasileiro, a Bienal movimentou mais de R$ 10 milhões em vendas diretas, beneficiando expositores.

Em visita à Bienal, onde assistiu e participou como convidado especial do painel “Desafios e Oportunidades na Economia do Nordeste e do Brasil”, com a economista Tânia Bacelar e o senador Humberto Costa, mediado pelo secretário de Cultura, Gilberto Freyre Neto, o governador Paulo Câmara ressaltou que “a Bienal sempre cumpriu um papel importante de mostrar para a juventude, para os pernambucanos e todas as pessoas que visitam a feira, a força da nossa literatura, a importância de ler, de estar sempre buscando pensar mais, pensar no futuro, pensar no passado e tirar lições dele. Então, é uma grande atividade, um grande movimento em favor do livre pensar, da busca de diminuir desigualdades”.

Essa compreensão denota a importância da realização de um evento dessa envergadura, que pode apresentar resultados e avanços importantes para o estado. Vivemos um tempo de novas integrações e reconhecer essa vocação de cogestão entre estado, mercado e movimentos da sociedade civil organizada, é garantir a segurança do nosso patrimônio cultural, e nesse sentido, demos um passo decisivo para a Bienal de 2021. Em discussões com gestores de educação e cultura, em várias mesas e praças de debates, nasceu o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PELLLB), “um instrumento de implantação e monitoramento da política setorial, que leva em consideração a importância de ações de incentivo à leitura e de formação de leitores como fator de cidadania e ferramenta para a conquista de melhores índices de desenvolvimento humano e social”.

O PELLLB foi elaborado por um grupo de trabalho composto por membros eleitos da sociedade civil, participantes do Fórum Pernambucano em Defesa das Bibliotecas, Livro, Leitura e Literatura (FPEBLLL), e por seis representantes do governo estadual, através das Secretarias de Educação (SEE-PE) e de Cultura (Secult-PE), da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe)  e da Universidade de Pernambuco (UPE), que se transformou em Projeto de Lei e foi enviado à Assembleia Legislativa do Estado, para ser votado. Mais uma vez, a sociedade manterá o que há de mais reconhecível no povo pernambucano: a vocação em manter vivas suas histórias, para resistir, e mais impressionante, manter sua determinação em resistir, para a história. Sigamos firmes!

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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