Diario de Pernambuco
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Opinião
Editorial Renda desigual

Publicado em: 18/10/2019 03:00 Atualizado em: 18/10/2019 08:50

Preocupa, e muito, o aumento da desigualdade no país com a impressionante elevação da concentração de renda, o que significa que a parcela de 1% mais rica da população ganhou, ano passado, 33,4 vezes mais do que os 50% mais pobres, distorção considerada perigosa pelos economistas. Assim, o Brasil faz parte do vexatório grupo das nações mais desiguais do mundo, mesmo figurando entre as 10 maiores economias do planeta. A incontestável realidade é que os ricos ficaram mais ricos e os pobres, mais pobres. A tão prometida repartição da riqueza foi, novamente, adiada.

A questão de fundo é que mesmo com o fim da recessão de 2014 e 2015, uma das piores da história, a desigualdade não está refluindo, o que era esperado pelos especialistas. Pelo contrário. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), a diferença entre os rendimentos dos 50% mais pobres e o 1% mais rico é recorde da série histórica, que começou em 2012.

Desde aquele ano, por exemplo, não se via resultado tão ruim do Índice de Gini (medida que avalia a concentração de renda desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini), que subiu alguns pontos na avaliação de todos os rendimentos das famílias brasileiras, como trabalho, aposentadorias, pensões, aluguéis, Bolsa-Família e outros benefícios sociais.

O Pnad mostrou que o rendimento médio do 1% mais afortunado da população é de R$ 27.744, enquanto 50% dos brasileiros recebe, em média, R$ 820. A disparidade de renda também se dá regionalmente, com o Sudeste (cerca de 40% da população) concentrando um montante de renda (R$ 143,7 bilhões) superior a todas as outras regiões do país. O Sul apresenta rendimentos superiores aos noves estados do Nordeste, mesmo tendo uma população quase 50% menor.

Claro está que um dos principais motivos para o aumento da desigualdade foi a persistente precariedade do mercado de trabalho, que conta com mais de 35 milhões de pessoas na informalidade. Os que estão no mercado informal ganham menos do que os trabalhadores com carteira assinada ou os servidores públicos, o que, também, contribuiu para o quadro levantado pela pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outro fator é que a Previdência não é igualitária e está mais concentrada entre os mais ricos, contribuindo para o fosso social.

Existem, ainda, os fatores históricos e estruturais para explicar a persistente disparidade de rendimentos. Entre eles está a herança escravocrata, o patrimonialismo que usufrui os recursos do Estado e os empregos públicos, políticas sociais voltadas para os privilegiados e um regime tributário que penaliza os mais necessitados e beneficia os mais ricos. Diante desse cenário de distribuição de renda assustador, tudo deve ser feito para a reversão de quadro tão perverso.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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