Diario de Pernambuco
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Opinião
Rebeliões das massas

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 28/10/2019 03:00 Atualizado em: 28/10/2019 08:53

Milhões de pessoas, no mundo inteiro, estão protestando nas ruas. Geralmente uma fagulha detona o imenso descontentamento represado. No Chile, foi um aumento de 3,7% no metrô que transporta 2,7 milhões de passageiros por dia numa cidade de 7 milhões de habitantes. Em Hong Kong, foi uma proposta de lei que permitiria a extradição de suspeitos criminais para a China. No Líbano, uma taxa sobre ligações pelo WhatsApp. Na Catalunha, a condenação dos nove líderes do plebiscito de 2017 pela Suprema Corte. No Sudão, a retirada de subsídios aumentou o custo de vida e culminou com a deposição do ditador Omar al-Bashir em abril. Na França, os ‘gillets jaunes’ mobilizaram-se contra o aumento dos combustíveis. A mesma fagulha do Equador, que forçou o presidente Lenin Moreno a restabelecer subsídios para os combustíveis. Na Bolívia, os protestos foram contra a suposta manipulação dos resultados pelo governo reeleito. No Iraque, contra a corrupção e o desemprego.

O que têm em comum essas mobilizações? Tipicamente não têm lideranças estabelecidas, fazem uso intenso das mídias sociais, defendem plataformas múltiplas e vagas, expressam um forte incômodo com a má qualidade dos serviços públicos, a pobreza, a desigualdade, a corrupção e o distanciamento da classe política. Sempre com forte presença da juventude. Protestam contra a concentração de poder político e econômico, que gera pobreza, desigualdade e corrupção. Há uma percepção generalizada de que essas ‘democracias’ são falhas e enviesadas para benefício de umas poucas elites. Para essas massas rebeladas, trata-se de mudar radicalmente o funcionamento das instituições.

Tome-se o caso do Chile. Mais de 1,2 milhão de pessoas fizeram na Praça Itália a maior manifestação da história chilena. Não saíram às ruas para quebrar estações de metrô. Mas para protestar contra o baixo valor das aposentadorias e pensões (o sistema de previdência social, privatizado, retorna pensões médias de apenas US$ 340,00), os altos custos da educação e da saúde privatizadas e a elevação das tarifas do transporte coletivo. Em suma, foram protestar contra a exclusão de largas parcelas, produto de um modelo concentrador de crescimento. Registre-se o reconhecimento do presidente Piñera, que foi à TV pedir desculpas por sua ‘falta de visão’. E que apresentou de imediato um pacote de medidas de aumento das aposentadorias, e de verbas para saúde, educação e moradia, estimado em torno de US$ 1,2 bi. Embora o povo e muitos analistas as tenham avaliado como insuficientes, as medidas podem ser um início.

Ao mesmo tempo, podem estar apontando um caminho para governos como o brasileiro que avançam políticas de austeridade e liberalização dos mercados, mas relutam em adensar a pauta das políticas sociais. Sem que se encontre um caminho rápido e consistente para melhorar as condições de vida de nosso povo, o caldeirão chamado Brasil pode voltar às ruas. Como fez em junho de 2013, quando a presidente Dilma não o entendeu. Nem o atendeu. Aliás, o ex-presidente Lula ainda hoje continua a afirmar que, em 2013, os ‘recém-incluídos’ estariam apenas ‘pedindo mais, como é humano’. Até hoje Dilma e Lula relutam em reconhecer que o protesto dos excluídos de 2013 tinha explicação mais simples. Apesar de avanços como o do salário mínimo e do bolsa-família, os milhões de pobres do Brasil continuavam muito pobres. Morando mal, sem saneamento, sendo mal atendidos em hospitais públicos, vendo seus filhos em escolas sofríveis. E desempregados. Sob o novo governo, já passados os primeiros dez meses, não se ouve falar de políticas consistentes para melhorar a vida desses milhões de desfavorecidos. Ao contrário, surgem propostas que mexem com a rede de proteção social construída a partir da Constituição de 1988. Por isso, muitos já se perguntam se não chegarão por aqui as manifestações que estamos vendo por esse mundo afora. O Chile seguiu à risca o manual: austeridade fiscal, diminuição do papel do estado e abertura comercial. Mas, logo, o povo, esse grande esquecido, resolveu manifestar o seu incômodo. A desigualdade passou a ser intolerável para quem, aos poucos, foi vendo evaporar o valor de suas aposentadorias e pensões. Para quem, sem poder pagar o tratamento de saúde e a escola do filho, foi aprendendo a pensar fora da caixa. A pensar soluções criativas, radicais e inimagináveis para os tradicionais. Bem antes das elites econômicas, políticas e acadêmicas que continuam com suas receitas prontas e seus slogans vazios. As mesmas que relutam em incluir o povo real em suas equações.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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