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Opinião
Editorial Protestos chilenos acendem a luz amarela no Brasil

Publicado em: 23/10/2019 03:00 Atualizado em: 23/10/2019 09:14

Costuma-se dizer que o Brasil não é para principiantes. Talvez a assertiva deva ser estendida à América Latina. O Chile serve de exemplo. Há anos, o país andino vendia a imagem de nação que acertou o passo depois de uma das mais violentas ditaduras que varreram o subcontinente na última metade do século passado.

Cercado de mazelas terceiro-mundistas, parecia uma ilha de prosperidade e excelência. Há 30 anos, eleições livres e democráticas asseguram a pacífica alternância de poder. A economia cresce. A renda média, de US$ 25,7 mil, é a maior da vizinhança. Ultrapassa à do Brasil e à da China.

A inflação está sob controle — abaixo de 3%. O desemprego, embora tenha aumentado gradualmente nos últimos meses, não causa preocupação maior. Projeções apontam para crescimento de 2,5% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2019. Nada mal se for levada em conta a situação econômica internacional.

Mas, apesar dos inegáveis avanços, o país convive com revolta de grandes proporções. Desde o dia 18, quando o governo anunciou majoração de 4% na tarifa do transporte público, multidões ocupam as ruas das principais cidades. O saldo: pelo menos 15 mortos, mais de 200 feridos e 2 mil presos.

Na verdade, o chileno experimentou um estado de bem-estar que o tornou exigente. É natural que queira saltar para um patamar superior. Uma série de aumentos nos custos de serviços essenciais — eletricidade, transporte, água potável, seguros de saúde — tornou o salário mais curto que o mês. Educação e saúde também enfrentam sérias dificuldades.

Analistas avaliam que as medidas econômicas afetam 80% da população. O percentual corresponde à parcela mais necessitada dos cidadãos. Além dos rendimentos insuficientes, eles estão endividados, o que lhes reduz ainda mais o poder de consumo.

A reação do presidente Sebastián Piñera, longe de acalmar os ânimos, exaltou os manifestantes. Ele suspendeu o reajuste das passagens e decretou estado de emergência e toque de recolher. A presença do Exército, ausente da segurança ostensiva desde o fim da era Pinochet (1973-90), foi incapaz de conter saques, incêndios e depredações.

Assim como ocorreu no Brasil em 2013, o aumento da tarifa do transporte público não é a causa principal dos protestos nas ruas. O ato serviu de estopim. Abriu a comporta para a enxurrada de insatisfações que se acumularam ao longo dos anos. A mobilização, lá e cá, foi feita pelas redes sociais — sem custo e sem controle de sindicatos ou partidos.

Os serviços de inteligência foram incapazes de detectar o sentimento de insatisfação que crescia nos subterrâneos sociais. A elite política, com os olhos postos no próprio umbigo, tampouco desempenhou o papel de amortecedor entre as duas pontas.

O desafio de Piñera, agora, é pacificar a nação. O de Bolsonaro, prevenir turbulências decorrentes da desigualdade crescente, da pobreza duradoura e do desemprego elevado. Em português claro: acendeu-se a luz amarela. É bom que não dê vez à vermelha.

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