Diario de Pernambuco
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Opinião
Orfãos da Terra

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 14/10/2019 03:00 Atualizado em: 14/10/2019 09:14

Donald Trump fez um acordo cm Erdogan para retirar as tropas americanas da fronteira nordeste da Síria, onde vive a minoria de curdos-sírios. Com isso, viabilizou a invasão daquele território sírio pelas tropas da Turquia. Quando escrevo, já são mais de 130 mil pessoas desalojadas, outras centenas perderam a vida. Cerca de 800 prisioneiros do ‘Estado Islâmico’ (EI) conseguiram fugir das prisões em que se encontravam. O governo turco alega que vai criar uma ‘zona de segurança’, combater terroristas curdos e facilitar o retorno de parte dos 200 mil curdos que hoje vivem na Turquia. Os críticos dizem que a retirada americana, substituída pela ocupação turca, vai facilitar a vida dos terroristas do EI. Sabe-se lá o que acertaram Trump e Erdogan, que tanto têm em comum no desprezo pelos valores democráticos e civilizatórios. Mas sabe-se que privar os curdos do seu território sírio vai engrossar as tenebrosas estatísticas dos refugiados sem um lugar para viver.

Para as vítimas desses conflitos e do subdesenvolvimento o mundo de hoje mais parece o inferno. O outro lado da medalha é a atitude de pessoas e organizações que se movem para diminuir o sofrimento dos refugiados. ACNUR, OEA, Médicos sem Fronteiras, Cruz Vermelha e tantas outras ONGs fazem a sua parte. Somando-se à legião dos que se sensibilizam com o drama, a novela Órfãos da Terra, da TV Globo, merece todos os elogios. Pela escolha do tema, diante do sofrimento de tantos milhões de pessoas sem perspectivas de sobreviver no torrão em que nasceram. Pela mensagem de solidariedade ao sofrimento alheio. E por ajudar outras pessoas a tomar consciência desse drama que é um dos mais lancinantes do mundo atual. A trilha sonora escolhida para a novela já deixava claro o que viria a seguir. ‘Diáspora’, dos Tribalistas, é de 2003. Mas premonitória do agravamento da triste sina dos refugiados mundo afora que se agravaria nos próximos anos. “Atravessamos o mar Egeu/

Um barco cheio de Fariseus/Com os Cubanos/Sírios, ciganos/Como Romanos sem Coliseu/Atravessamos pro outro lado/No rio vermelho do mar sagrado/Os center shoppings superlotados/De retirantes refugiados/(...) Onde está?/Meu irmão sem irmã/O meu filho sem pai/Minha mãe sem avó/Dando a mão pra ninguém/Sem lugar pra ficar/Os meninos sem paz/Onde estás meu Senhor?”

A cena final da novela mostrou o elenco segurando fotos de antepassados que para cá migraram vindo de diferentes regiões do mundo. A fala final da personagem Laila foi um brado para que o Brasil cumpra seu destino de país tolerante, acolhedor e solidário com os migrantes. “Que o Brasil continue sendo esse país acolhedor, com pessoas que praticam a empatia, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor, que esse país que é um grande caldeirão de raças inspire o mundo. Que não existam mais fronteiras fechadas, crianças sem pais, barcos sem portos para atracar, bombas que matam e incêndios que destroem memórias e culturas em nome da ganância e da intolerância. Que não existam mais gases lacrimogênios e sprays de pimenta, que ardem, cegam e nos impedem de enxergar o outro. Que não se faça noite em pleno dia. Que angolanos, curdos, ciganos, bolivianos, tibetanos, palestinos, congoleses, indígenas, filipinas, sírios, cristãos, judeus, muçulmanos de Mianmar deixem de ser órfãos e possam ser todos filhos dessa terra”.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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