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Opinião
Editorial O Nobel e nós

Publicado em: 21/10/2019 03:00 Atualizado em: 21/10/2019 05:02

Falar em economia parece grego para a maioria dos mortais. Fórmulas e vocábulos difíceis constituem barreira só transponível para meia dúzia de privilegiados. O Prêmio Nobel não fica atrás. A Academia de Ciências de Estocolmo concede a láurea a cientistas e intelectuais que desvendam mistérios semelhantes a hieróglifos. Mesmo os agraciados com o troféu de literatura ocupam patamar tão elevado que raramente alcançam a camada popular.

Assim, surpreende a premiação deste ano. O Banco Nacional da Suécia concedeu o Prêmio Nobel de Economia ao indiano Abhijit Banerjee, à franco-americana Esther Duflo e ao estadunidense Michael Kremer. Banerjee e Duflo são professores do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) e Kremer da Universidade de Harvard. Eles desenvolveram estudos sobre a redução da pobreza — tema de uma atualidade chocante.

A propósito, valem as palavras do comitê que oferece o prêmio: “Apesar da melhora nos padrões de vida, mais de 700 milhões de pessoas ainda subsistem com rendas extremamente baixas. A cada ano, cerca de 5 milhões de crianças menores de cinco anos morrem por doenças que poderiam frequentemente ser prevenidas ou curadas com tratamentos baratos. Metade dos infantes do mundo abandona a escola com capacidades apenas básicas de leitura e aritmética”.

Situado entre as 10 maiores economias do mundo, o Brasil apresenta dados preocupantes. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do IBGE, mostrou que a desigualdade cresceu no país entre 2014 e 2018 e atingiu o maior índice desde 2012. A renda dos 30% mais pobres caiu e a dos mais ricos subiu, sobretudo para o grupo do 1% do alto da pirâmide. De 2017 a 2018, o rendimento médio dos privilegiados saltou 8,4%; o dos que labutam no andar de baixo encolheu 3,2%. Trocando em miúdos: aumenta o fosso entre a base e o topo.

O trio ora agraciado aponta nova direção no trato do espinhoso problema. Focado nos lares mais pobres, adota abordagem inovadora no tocante ao enfrentamento eficaz da desigualdade que se acentua em nações pobres e ricas. Longe de olhar para as estatísticas frias, que transformam pessoas em números, os economistas se debruçaram sobre questões concretas que podem responder com experimentos de campo. Em bom português: em vez de ficar só na teoria, eles partem para a prática. Buscam mais do que números. Buscam melhorar a vida das pessoas com políticas fáceis, baratas e mensuráveis.

É o caso de testar a oferta de reforço escolar para estudantes com baixo rendimento, a possibilidade de optar por merenda escolar ou livros didáticos, a recompensa pela adesão às campanhas de vacinação, a concessão de remédio gratuito em comparação com o oferecido por custo quase irrisório. As conclusões contribuem para a melhora, por exemplo, dos resultados da educação e da saúde infantil. Também avaliam a eficácia das políticas públicas — que permite correção de rumos e evita desperdícios não só de recursos financeiros e humanos, mas também do futuro de gerações.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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