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Opinião
O Nobel e exterminador

Raimundo Carrero
Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 14/10/2019 03:00 Atualizado em: 14/10/2019 09:13

O austríaco Peter Handke – autor de intensa obra literária,com muitas experiências narradoras – é o Prêmio Nobel-2019 – depois de uma espera de muitos anos. Imediatamente foi contestado por ter oferecido apoio sistemático ao ditador Milasovik, responsável pelo extermínio em 1995, quando a Iuguslávia foi desfeita para surgimento da Sérvia e da Bósnia. Foi este apoio, conforme os analistas, que retardou a entrega do Nobel a Handke.

A primeira contestação surgiu da entidade mães da Bósnia que pede, sobretudo que o prêmio seja imediatamente retirado. Não obteve resposta, e claro, MS não é a primeira vez que a premiação e contestado porque, em outra circunstância, o Nobel do romancista norueguês Hansun – autor de Fome – foi igualmente criticado porque havia condencorado um general nazista. Mais d que um erro, um provocação.

Handke é muito conhecido no Brasil pela tradução de suas histórias Asas do Desejo, A Repetição e O Medo do goleiro diante do Penalti, adaptados para o cinema por Wim Wenders, que também esteve em moda nos anos 1990, com intensa atuação. Muitas vezes aplaudidos e criticados, e mesmo assim, laureados.

Na verdade, a princípio fiquei muito alegre com o Nobel para Handker porque gosto muito de sua obra, em quem vejo um experimentalista e um antecipador. Mas comecei rever a minha posição de apoio a ele, ao tomar conhecimento de sua adesão ao exterminador.É claro que não sou um especialistas em Sérvia, mas um extermínio e sempre um extermínio e não há como aprová-lo.

Sou inteiramente ingênuo nestas questões de guerra.Mais ainda em extermínio.Leio pouco, falo menos ainda.  Alguma coisa da segunda guerra, às vezes. Imagine uma guerra tão recente.Handke achava de Milasovick tinha razão. Razão, hein? Extermina e ainda tem razão. Incrível.

Handke só tem razão em escrever tão bem. Nas opiniões de guerra é horrroso.Eu espero que o Nobel seja mantido, mas que ele perca, pelo menos, medalha.Algo que parece improvável, mas o mundo não pode ser tão injusto assim. Pelo menos, um Nobel que seja merecido pela sua força e pelo seu encanto. No mais, é esperar que um dia o Brasil seja também agraciado, pelos inegáveis méritos literários. Basta que o Itamaraty se mova com a qualidade diplomática que sempre teve.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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