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Opinião
Editorial O impasse na Bolívia

Publicado em: 25/10/2019 03:00 Atualizado em: 25/10/2019 09:13

Acrescente tensão política na Bolívia preocupa governantes dos demais países da América do Sul, depois das idas e vindas na apuração das eleições presidenciais em que o presidente Evo Morales, candidato a um quarto mandato, se autoproclamou vencedor no primeiro turno. Oposicionistas não reconhecem o resultado que daria a vitória ao atual ocupante da Presidência.Insistem em que o maior rival de Evo, o ex-presidente Carlos Mesa, conquistou o direito de disputar o cargo máximo do país num segundo turno e denunciaram uma “fraude gigantesca”.

As manifestações tomaram as ruas das principais cidades do país, incluindo a capital, La Paz, e a mais populosa, Santa Cruz de la Sierra. Manifestantes também fecharam a fronteira nas imediações de Puerto Quijaro, na divisa com o Mato Grosso do Sul. O receio é de que os confrontos tomem maior dimensão e fiquem incontroláveis. No meio das acusações entre situação e oposição, o Conselho da Organização dos Estados Americanos (OEA) aponta que diversos princípios democráticos foram desrespeitados no pleito eleitoral do último domingo e sugere a realização de um segundo turno, também defendida por Mesa.

Para o chefe da missão de observadores do organismo internacional, Gerardo de Icaza, eleições devem “ser regidas pelo princípios da certeza, legalidade, transparência, equidade, independência e imparcialidade. A missão (da OEA) concluiu que vários desses princípios foram violados por diferentes causas ao longo deste processo eleitoral”. Diante disso, sugere uma nova rodada das eleições. Tese apoiada pela influente Igreja Católica boliviana. A Conferência Episcopal da Bolívia (CEB) defende a nomeação de um Superior Tribunal Eleitoral independente para acompanhar uma outra disputa entre Evo e Mesa.

O presidente boliviano, por sua vez, acusa setores da direita de tramarem um golpe de Estado com apoio internacional, mas não indicou os responsáveis pela trama. Segundo Evo, manifestantes contrários a ele atacaram centrais eleitorais para impedir a contagem dos votos. Isso aconteceu depois da convocação, pelos sindicatos, de uma greve geral por tempo indeterminado e de uma marcha pelos principais centros do país. Durante as manifestações, aconteceram cenas de incêndios e vandalismo contra os locais de apuração.

O caos na contagem dos votos se deu porque, fechadas as urnas, o Tribunal Supremo Eleitoral utilizou dois métodos para a apuração: contando voto a voto e somando os votos registrados em atas, que traziam os números de cada mesa. Num primeiro momento, apenas os resultados do segundo método foram divulgados. Quando o escrutínio indicava o segundo turno, a contagem foi suspensa. Daí em diante, criou-se grande confusão, pois a cada hora o tribunal anunciava o resultado por uma metodologia, até que confirmou a vitória de Evo através da apuração pelas atas. Mesa e correligionários não aceitaram a decisão e denunciaram a fraude.

Vários países demonstraram sua preocupação com o momento político vivenciado pela Bolívia, entre eles o Brasil, Argentina, Colômbia e Estados Unidos, assim como a União Europeia. O impasse está criado e espera-se que a crise seja solucionada através do bom senso e diálogo. Que sejam assegurados os direitos democráticos da população boliviana. Pelo bem do país vizinho.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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