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Opinião
MPB no tempo e no espaço

Ana Maria Castelo Branco
Mestra em Letras pela UFPE, professora, escritora e contadora de histórias

Publicado em: 24/10/2019 03:00 Atualizado em: 24/10/2019 08:51

Na última quinta-feira, 17/10, foi comemorado o Dia da Música Popular Brasileira, que também é conhecido como o Dia Nacional da MPB. Essa data faz uma homenagem ao nascimento da primeira compositora oficial da Música Popular Brasileira: Chiquinha Gonzaga, que nasceu em 17 de outubro de 1847. O Dia da MPB foi criado a partir do Decreto de Lei nº 12.624, de 9 de maio de 2012, outorgado pela então presidente.

Vivemos em ambientes com uma infinita diversidade musical. Quando criança, somos embalados ao som dos mais diversos acalantos e a nossa infância foi constituída por uma colcha de retalhos cheia de cantigas de roda e músicas infantis, além de sermos influenciados pelos gostos musicais de familiares e vizinhos.

O filósofo Nietzsche já afirmava que “a vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”, e se fecharmos os olhos e nos transpusermos para essa assertiva, veremos que a nossa sociedade brasileira tem necessitado da música para suavizar seus estresses atuais.

É importante registrar que a MPB surgiu a partir da influência de vários gêneros musicais, desde os típicos da Europa, até os africanos e indígenas. As suas raízes estão ainda durante o período colonial, no entanto, somente a partir dos séculos 18 e 19 a MPB começa a se formatar nas grandes cidades.

Há alguns anos, durante uma aula numa das universidades que frequentei, entrei em contato com o conhecimento acerca da MPB em três patamares, assim categorizados: música popular brasileira, música populista brasileira e música popularesca brasileira. Na primeira categoria estariam cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Marisa Monte, Elis Regina, Milton Nascimento, Maria Betânia etc. Na segunda categoria víamos cantores como: Reginaldo Rossi, Amado Batista, Bartô Galeno, Agnaldo Timóteo, Fafá de Belém, Roberto Carlos, dentre outros. Na terceira categoria compreendida como música popularesca brasileira, estariam todo tipo de música, cujas letras falam de violência, denigrem a imagem da mulher e/ou usam palavrões de baixo calão.

“Popularesco” era a expressão que, nos anos 20, Mário de Andrade utilizava para dar conta da maneira como o Brasil reinventava musicalmente a síntese étnica das três raças. Referia-se a uma produção veiculada pelos meios de comunicação de massa. Era a “submúsica”, “carne para alimento de rádios e discos”, que “atucanava” a “sensualidade fácil” do público.

A discussão em torno da pureza relacionada à música ocupou a maior parte da crítica musical brasileira no século 20, criando até hoje uma enorme dificuldade de algumas pessoas em lidar com músicas que fazem sucesso em dado momento da nossa sociedade. Vimos que atualmente, a música popular não está ligada a critérios historicamente institucionalizados.

A maioria de nós possui um gosto musical eclético e nessa sociedade de consumo, embora haja preferência de algumas pessoas pela MPB, às vezes, o mais exigente e cuidadoso dos “mpbistas” pode se deixar levar pela música/ritmo do momento; e vez ou outra se ver cantando ou curtindo trechos musicais como: “Malandramente”, “A gente não liga pro o que o povo diz”, “Eu ‘tô na brisa, e nada me abala, que delícia”.  Como isso, observamos que a vida está impregnada da magia musical, pois para cada momento de nossa existência, há um gênero, um ritmo adequado e que tem um significado individual presente.

Segundo Platão “a música é o meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina àquele que recebe uma verdadeira educação, dá alma ao universo, asas à mente, voo a imaginação, e vida a tudo!” Alguns diriam que somente a boa música é capaz de fazer isso, mas como definir a boa música para pessoas com educação, hábitos, costumes, religiões e culturas tão diferentes?

A música tem um poder sobre nós, ela nos faz viajar no tempo, mexe com as nossas emoções e melhora a nossa memória, além de espantar os males a nossa volta. Devido ao seu poder terapêutico, surgiu a musicoterapia que é o uso da música num contexto de tratamento, reabilitação ou prevenção de problemas de saúde e para promover o bem-estar.

Finalizando, cito a sabedoria dos nossos antepassados que recomendavam que impregnássemos as nossas vidas de músicas, pois, isso contribui para que os afazeres diários pareçam mais fáceis de lidar, porém é necessário arrancarmos nossos preconceitos relacionados a estilos e/ou gostos musicais para que a imaginação não encontre limites de sensações.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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