Diario de Pernambuco
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Opinião
Missas de ontem e de hoje

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicado em: 22/10/2019 03:00 Atualizado em: 22/10/2019 09:29

Sou do tempo da missa pré-conciliar. Da missa em latim, a mesma em qualquer parte do mundo. Depois, acompanhei o Concílio e suas imensas (e notáveis) modificações. A primeira grande renovação foi justamente a da missa – a liturgia que era em latim passou a ser em vernáculo.  Se se tornou um esforço assistir missa em outros países, com outras línguas (mas não é assim mesmo em tudo, quando se viaja?), o fato é que a missa ficou mais entendida, mais bem acompanhada pelos fiéis. E gostei das excelentes renovações que foram feitas: os vários prefácios; os anos A, B e C, pelos quais se ampliaram os textos apresentados nas missas; a supressão de expressões barrocas, para voltar à simplicidade e à sobriedade dos Evangelhos (retirou-se, por exemplo, aquele desnecessário “nas suas santas e veneráveis mãos” da consagração). De uma ou outra coisa posso não ter gostado. Por exemplo: da supressão do salmo inicial, no qual louvávamos a Deus, “qui laetificat juventutem meam” (que alegrou a minha juventude).

Sou testemunha também das terríveis anarquias que se seguiram ao Concílio, quase cada sacerdote inventando um rito diferente, não poucos, aliás, repletos de besteiras. Mas as coisas aos poucos foram se acomodando. Os bispos brasileiros elaboraram um texto muito bom, muito respeitoso e em bom português (talvez uma ou outra exceção: há uma passagem em que falta claramente um “cujo”...). Com o tratamento de “senhor” e “vós”, e não a excessiva intimidade do “você”, nem a dureza do “tu”, a que não estamos acostumados. Ainda pode haver alguma obscuridade, ou margem de equívocos, numa passagem ou noutra, como foi muito bem denunciado na ocasião, sobretudo pelos excelentes Gustavo Corção e Gladstone Chaves de Melo – e um episcopado inteligente bem poderia agora, serenamente, reler aquelas denúncias e promover algumas retificações. De qualquer maneira, não há, na liturgia brasileira, nada tão grave como na França, em que no Credo não se diz “consubstancial ao Pai”, mas apenas “da mesma natureza do Pai” – que são afirmações completamente diferentes, a segunda sendo uma enormidade que não sei como Roma admitiu.

Mas o que sobretudo vejo agora, em diferentes missas, é o lento retorno de bela prática, que a reforma litúrgica abandonara. A missa antiga concluía com a recitação de três Ave-Marias. Para minha alegria muitas missas se estão encerrando agora, a diferentes pretextos, com a recitação da Ave Maria. Nada mais católico. Quem sabe essa prática não voltará a ser obrigatória? Porque uma das grandes marcas da Igreja é ser mariana. Ela sabe que o único redentor é Jesus Cristo, mas sabe também que sempre pode recorrer àquela em cujo ventre Ele foi gerado. Conta-se que africano já bem idoso, em cuja aldeia perdida não aparecia, há muito, mais nenhum sacerdote, deu, aos netos, essa indicação para reconhecerem como verdadeiramente católico algum religioso que por lá assim se anunciasse: se ele consagrar o pão e o vinho; se declarar fidelidade ao Papa; se rezar para Nossa Senhora... O católico é um bom filho. Que  não só sabe o que deve à mãe, mas confia nela, na intercessão dela, recorre a ela, que sabe ter sido escolhida como ninguém, ter sido especialmente abençoada e agraciada, e por isto sempre há de ter alguma força junto ao Pai, a Compadecida, do nosso Ariano.

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