Diario de Pernambuco
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Opinião
Medicina e ideologia

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 14/10/2019 03:00 Atualizado em: 14/10/2019 09:13

Acredito ser cada vez mais comum o médico basear-se em artigos publicados em periódicos especializados. Essas publicações são obrigadas a contar com peritos nas mais diversas áreas da Medicina.  A revista médica Lancet, um dos mais antigos periódicos médicos (lançada em 5 de outubro de 1823), atualmente está em segundo lugar em importância (conferir em 2018 Journal Citation Reports®, Clarivate Analytics 20190). A primeira colocada é a americana New England Journal of Medicine entre 160 periódicos médicos indexados. O artigo intitulado Retirada de médicos cubanos do Brasil pode afetar a saúde (The Lancet, vol. 392, Nº 10161, p2255) [29 de setembro de 2019], levou-me a escrever este comentário sobre o trato com a atenção básica de saúde.

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Em 2013, o Brasil criou o programa Mais Médicos para prestar assistência medicinal às populações de áreas remotas do país. De 2013 a 2018, mais de 18.000 médicos passaram a atuar no tal programa, sendo que desses 14.000 eram cubanos. A Administração Federal do Brasil pagava cerca de 10.000 reais (aproximadamente US$ 2.460) por mês por cada cubano participante do Mais Médicos. No entanto, os médicos cubanos recebiam 30% desse valor, enquanto que 70% eram repartidos entre o governo cubano e a Associação Pan-Americana da Saúde. Os médicos cubanos, pessoas amistosas e resignadas, viviam no Brasil confinados, sem liberdade de ir e vir, receb endo algo como 30% do que auferem seus colegas brasileiros.

“No ano passado, o recém-eleito presidente brasileiro Jair Bolsonaro exigiu uma revisão do contrato entre os dois governos. “Condicionaremos a continuação dos (médicos cubanos no) Mais Médicos à aprovação de um teste de competência, salário integral para profissionais cubanos, agora em grande parte destinados à ditadura, e a liberdade de trazer suas famílias (para o Brasil)”. Recusando-se a aceitar as novas regras impostas, Cuba retirou seus profissionais médicos do Brasil em dezembro do ano passado”. The Lancet, vol. 392, Nº 10161, p2255).  

Como professor de Medicina pergunto:

O que poderá fazer um médico isolado em uma pequena cidade do interior neste imenso subcontinente brasileiro, sem equipe e com falta total de equipamentos sanitários?  O médico pode ser o elemento mais importante, porém faltando os demais profissionais de saúde, não poderá fazer muita coisa.

Alegam os defensores desse “Mais Médicos” ser ele melhor do que médico nenhum. Disto não tenho muita certeza. Antes gostaria de frisar que o grito do povo por mais médicos é a expressão do desespero da população, pois as pesquisas apontam para a saúde como a segunda causa de insegurança, precedida pela criminalidade (durante o ano de 2016 o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios, segundo informações do Ministério da Saúde). Mas voltando à assistência médica, estou certo de que se tornam necessários, além de médicos, infraestrutura, boa remuneração com os vínculos trabalhistas legais, além do auxílio de profissionais de saúde de outras áreas e participantes das equipes de assistência à população.

O governo atual, respeitando as posições ideológicas de cada um, pode amenizar o padecimento hoje interminável de 150 milhões de usuários do SUS, a um custo irrisório, cerca de R$ 4,5 bilhões por ano. Menos de 5% do Orçamento federal destinado à saúde e muito pouco, perto dos R$ 88 bilhões surrupiados somente da Petrobras.

A óbvia transgressão dos direitos dos médicos que ocorria no programa Mais Médicos foi agravada por outra ilegalidade intrigante. O governo brasileiro transferia para Cuba um adicional de R$ 1 bilhão ao ano, além dos salários dos médicos. Para comprovar o absurdo dessa transferência, bastaria olhar os corredores de nossos principais hospitais apinhados de pacientes em corredores, macas, chão, pior do que os hospitais de guerra onde, apesar de improvisados, não havia esse caos.

Em razão de uma luta de muitos anos desenvolvida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) e outras entidades médicas contra essa bandidagem cubana, a Administração Federal lançou recentemente o Programa Médicos pelo Brasil, que, se não o ideal, procura atender ao grande problema de alocar médicos às regiões mais carentes do país, sem ferir os direitos primordiais da pessoa humana. O programa priorizará as pequenas e médias cidades. Além disso, quase 60% dos médicos estarão nas regiões Norte e Nordeste. No total, serão 18 mil médicos em 3 mil municípios. O processo seletivo, eliminatório e classificatório contemplará duas funções básicas: médicos de família para atender diretamente as comunidades e tutor médico.

Apronto dizendo: muitos pedem Medicina, mas poucos têm a ética de um médico. Por isso, antes de mais nada, renunciemos às ideologias. Acabemos com a polarização (extremismo) sobretudo a ideológica, que não deve influenciar na promoção da saúde das pessoas.  Não esquecer que alienação é a diminuição da capacidade dos indivíduos de pensar ou agir por si próprios e passar a considerar ideias pré-estabelecidas, não aceitando diálogo com todos. Termino lembrando a Oração do Médico composta por Maimônides, rabino, médico, nascido em Córdoba (1138 - 1204), adotada como jurame nto em algumas escolas médicas norte-americanas, no lugar do de Hipócrates (460 a.C. 377 a.C.).

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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