Diario de Pernambuco
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Opinião
Mal do ciclo

Jacques Ribemboim
Economista ambiental

Publicado em: 05/10/2019 03:00 Atualizado em: 06/10/2019 15:11

Crescimento econômico e desenvolvimento não são sinônimos. O primeiro está relacionado ao aumento quantitativo da produção e do consumo, sem preocupação com a sustentabilidade. O segundo, orienta-se por justiça social, eficiência produtiva e melhoria da qualidade de vida. A rigor, o termo “desenvolvimento sustentável” seria, portanto, um pleonasmo, haja vista que toda forma de desenvolvimento deve ser permanente, sem retrocessos.

No mundo real, rompantes de crescimento – tão ao gosto de alguns governos – possuem curta duração, uns poucos anos. Em linguagem popular, não passam de “voos da galinha”. E sempre resultam em endividamento, desemprego, deterioração ambiental, depleção de jazidas, redução de estoques, inflação e concentração de renda. Na verdade, um crescimento rápido seguido de um decrescimento causa efeitos catastróficos na sociedade.

Além de todas essas mazelas, a ciência conseguiu demonstrar que os indivíduos possuem uma espécie de “irracionalidade econômica”: se ascenderem a um determinado nível de consumo e depois retornarem ao anterior, ficarão menos satisfeitos do que estavam inicialmente. Em outras palavras, é preferível “não ganhar” a “ganhar e perder o que ganhou”.

Indo mais longe, os ciclos econômicos são injustos com certas faixas etárias, particularmente, a das crianças. Prejudicam também as futuras gerações e a natureza, na medida em que trocam o amanhã pelo hoje, a poupança pelo consumo, o duradouro pelo efêmero. Infelizmente, crianças, gerações futuras e animais não votam e, consequentemente, não constituem prioridades para políticos mesquinhos, cujos horizontes de planejamento não ultrapassam o quadriênio de seus mandatos.

Ressurgem as apreensões aristotélicas, de que as democracias se degenerem em demagogias. De fato, os riscos são elevados quando os governos optam por crescimento em lugar de desenvolvimento ou, como se diz no popular, “jogam pra a galera”, no afã da reeleição. Mas apesar de todos os alertas, sofremos, e muito, como os booms and busts dos ciclos econômicos. Haveria forma de evitá-los? Existiria solução?

De início, nunca acreditar em candidatos que durante as campanhas eleitorais prometam mundos e fundos, estranhezas do tipo “dobrar o salário-mínimo” ou “crescer cinquenta anos em cinco”. Trata-se de populismo barato ou charlatanice mesmo.

Do ponto de vista técnico, seguir a famosa “regra de Hartwick”, a qual propõe aos governos reinvestir, em capital humano, ambiental e de infraestrutura, a receita advinda de uma diminuição do patrimônio natural, por exemplo, a da venda de minérios.

De um modo geral, a solução precisa ser à moda de Ulisses, o grego que se amarra ao mastro do navio para escapar do canto das sereias. Em nosso caso, o canto das sereias é o consumo exagerado e a amarração ao navio, um conjunto de leis que assegurem o compromisso com a sustentabilidade do planeta.

Mal du siècle foi o nome dado à doença da alma que acometia a juventude do século 19, desiludida com a falência do ideal romântico. Morria-se de amor, por assim dizer. Hoje, aterroriza-nos o mal do ciclo, causado por governos demagógicos e eleitores incapazes de compreender o futuro.

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