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Opinião
Editorial Hoje deveria ser dia de festa

Publicado em: 12/10/2019 03:00 Atualizado em: 13/10/2019 20:14

Hoje, em todo o país, é comemorado o Dia das Crianças. A data foi instituída em 1924, um ano depois de o Rio de Janeiro sediar o 3º Congresso Sul-Americano da Criança. A afirmativa “as crianças são o futuro do Brasil”, que costuma aparecer em discurso de governantes, soa como falácia se confrontada com a realidade nacional. A dívida social com a população infantil — 56,7 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — cresce, a cada ano, nos campos da educação, da saúde e, principalmente, da segurança pública.

O Brasil tem a mais avançada legislação para proteger a população infantojuvenil, o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Mas, desde a edição da norma, grande parte dos direitos é negligenciada por sucessivos governos. As instituições de ressocialização não cumprem, como deveriam, a missão prevista na lei e devolvem à sociedade jovens ainda mais agressivos, prontos, em sua maioria, para seguir carreira no mundo do crime — um futuro obscuro.

A redução da mortalidade infantil se destaca entre os muitos desafios colocados ao Estado brasileiro. Atualmente, a taxa de mortalidade está em 12,4 por mil nascidos vivos, bem acima da meta fixada pelas Nações Unidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, de reduzir a cinco mortes por mil nascidos vivos até 2030. A dificuldade de acesso aos serviços médicos-hospitalares, falta de atendimento à gestante, resistência ao parto natural e muitas outras deficiências da rede pública de saúde comprometem quaisquer metas de políticas públicas.

Pelo menos 61%, ou seja, 32 milhões de meninos e meninas têm a vida dificultada pela desigualdade socioeconômica. A essa parcela expressiva da população, que vive na pobreza, são negados direitos previstos tanto na Constituição quanto no ECA, como saneamento básico (13,3 milhões), educação (8,8 milhões), água (7,6 milhões), informação (6,8 milhões), moradia (5,9 milhões). Além disso, 2,5 milhões são empurrados para trabalho precoce, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A insegurança, que afeta todos os brasileiros, não poupa as crianças. A cada 60 minutos, uma delas ou um adolescente morre no país por arma de fogo, de acordo com estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria, com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Nos últimos 20 anos, a internação de meninos e meninas atingidos por disparos de artefatos bélicos custaram R$ 210 milhões ao Sistema Único de Saúde.

Os dados sobre a realidade da infância no Brasil impõem ao Estado um repensar das políticas públicas. Para que meninos e meninas sejam o futuro do país, é urgente transformar o presente, por meio de programas e projetos que lhes possibilitem desfrutar de todos os direitos previstos nas leis. Que deem a eles motivos para comemorar o 12 de Outubro.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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