Diario de Pernambuco
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Opinião
Festa para uma pernambucana

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 29/10/2019 03:00 Atualizado em: 29/10/2019 09:03

A vida tem estado tão destrambelhada para tanta gente – e falo a nível local e no resto do mundo, que se chega a se perguntar que danada de maldição – se é que – vem caindo por todas as partes do planeta, guerras e rumores de guerra como no Apocalipse, mares descongelando-se, bichos morrendo e por nossa causa – não posso esquecer imagens de fogo, os rios fervendo os peixes flutuando como numa imagem que vi outro dia, e os rostos das crianças correndo de bombas, sem entender nada e é como se fossem minhas netinhas que corressem do horror. Senhor, até quando? De modo que, se há uma brechinha para respirar, festejemos sim, algum momento de se poder comemorar alguma coisa boa, que acontecerá, como no cântico sagrado. E ontem foi isso aí, a linda festa com que saudou a Academia Pernambucana de Letras, a posse de mais uma sócia, no caso a pernambucaníssima Elyanna Caldas Silveira. Que é responsável, há mais de quatro anos pela organização de cerca de 200 tardes de concertos nos domínios da Academia; e não apenas concertos, mas encontros sobre Educação musical de altíssimo nível, oferecidos gratuitamente por artistas de passagem para os quais Margarida Cantarelli abre as portas da casa, ou artistas locais que nem sempre têm um espaço como o da APL para se apresentar em quartetos, duetos, pequenos grupos de pesquisa, espaço não tão vasto nem suntuoso como o Santa Isabel nem tão exíguo quanto uma sala de galeria, por exemplo. Ellyana entra para a Academia na trilha de outros dois grandes músicos, Layette Lemos e Waldemar de Oliveira e promete continuar na ajuda a essas ocasiões dominicais de alegria. E lembro a menina que meu irmão, Lupercio levou a conhecer – tão magrinha e pequena quanto eu. E concertos nos recitais que minhas concunhadas as irmãs Nobre de Almeida organizavam todos os anos, eu maravilhada e só não invejosa por que nunca soube o que isso é. E depois os prêmios internacionais de Elyanna e o trabalho que realiza em favor de nossa música. Pernambucana. Que bons ventos continuem a soprar sobre sua vida, querida Ellyana. E que continue a ser essa pernambucana que a todas nós mulheres enobrece. Um beijo.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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