Diario de Pernambuco
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Opinião
Dia dos Mortos: reverências, lembranças e saudades

Ana Maria Castelo Branco
Mestra em Letras pela UFPE, professora, escritora e contadora de histórias

Publicado em: 31/10/2019 03:00 Atualizado em: 31/10/2019 09:23

Dizem que não há morte, há esquecimento. Que a alma vive, enquanto se lembrarem dela, será? No Brasil o Dia de Finados, também chamado de “Dia dos Mortos” é comemorado em 2 de novembro, data em que muitas pessoas vão ao cemitério para prestar homenagem aos seus finados.

Por meio de dados históricos, sabemos que o Dia de Finados foi instituído no Século X por um abade beneditino francês, chamado Odílio. Porém, a data de 2 de novembro só foi oficializada no Século XIII, sendo comemorada na maioria dos países ocidentais. Essa data objetiva relembrar a memória dos mortos, dos entes queridos que já se foram, e (para os católicos) rezar pela alma deles.

Já para a maioria dos evangélicos, aqueles que morrem estão dormindo, aguardando o dia do Juízo Final. Segundo eles, nada do que os vivos façam poderá reverter o destino dos que já partiram dessa vida. Assim, não sentem necessidade de ir ao cemitério, homenagear pessoas cujos corpos já nem existem mais ali, se deterioraram no tempo.

De qualquer forma, o ato de morrer ou de perder um ente querido nos causa receio, tristeza e dor. A vida é algo que pulsa em nós e a todo momento clama por mais vida. É raro encontrarmos alguém que não tema a morte, embora saiba que fugir dela é inevitável, pois mais cedo ou mais tarde, como dizia o escritor, nós nos encontraremos com o “único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenado porque tudo o que é vivo... morre”.

No interior do estado, diferentemente da capital, a morte chega a ser aparentemente mais carregada de sentimentalismo, pois ainda se tem o costume de o velório ser realizado na casa daquele que faleceu. Os familiares, amigos e conhecidos passam a noite toda velando o corpo e conversando assuntos gerais, enquanto aguardam o momento do sepultamento. Depois do enterro, à volta para casa daqueles que continuam a vida é bastante dolorosa, parece haver um vazio difícil de preencher e/ou se acostumar.

Por mais que reflitamos a respeito, quando a morte chega não estamos preparados. É complicado lidar com a ausência das pessoas que amamos e mesmo sabendo que cada religião tem sua crença em torno dos mortos, e isso de certa maneira nos dá uma espécie de alento, o temor da morte é grande e paralisa até mesmo, a mais destemida das pessoas.

Para os que seguem a doutrina da igreja católica, por exemplo, a alma de (grande parte) dos que já se foram dessa vida está no purgatório passando por um processo de purificação. O termo purgatório designa uma noção teológica elaborada a partir da Idade Média no Ocidente. É como se encontram as almas que estão num estado provisório, devido ao fato de não estarem aptas a entrar imediatamente na visão de Deus por causa dos muitos pecados cometidos. Trata-se, portanto, de uma crença católica, que não foi acolhida nem pelas igrejas do Oriente nem pelos protestantes.

Cada civilização tem uma maneira de prestigiar seus mortos. Dentre as homenagens mais incomuns observamos que nas Filipinas, as famílias acampam no cemitério, onde limpam e pintam as tumbas, acendem velas e oferecem flores. Enquanto estão nos cemitérios, jogam cartas, fazem comidas, bebem, cantam e dançam. Na Guatemala, o Dia de Finados é marcado pela construção e uso de pipas gigantes.  Em Praga, os moradores celebram o Dia dos Mortos com máscaras, velas e caveiras de açúcar. Na Áustria, bolos são deixados sobre a mesa, e a sala é mantida quente para o conforto das almas. Aqui no Brasil, a movimentação já começa na semana anterior à data, quando as pessoas vão até os cemitérios limpar e pintar os jazigos da família, acender velas e ornamentá-los.

Dentre as crendices que giram em torno do tema morte, registramos duas delas, que são mantidas pela população: quando morre uma pessoa, devem-se abrir todas as portas da casa, de modo que a alma possa tomar o seu destino; quando sentimos um rápido tremor no corpo, é porque a morte passou por perto de nós. Nesse momento, devemos tocar a pessoa que estiver perto da gente e dizer a frase: “Sai, morte, que estou bem forte!”

Por que sentimos tanto medo da morte? Fiquemos com a reflexão do filósofo Epicuro: “A morte não significa nada para nós: quando somos, a morte ainda não chegou e quando ela chega, não somos mais.”

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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