Diario de Pernambuco
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Opinião
Coração andarilho e sentimentos atávicos

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 03/10/2019 03:00 Atualizado em: 03/10/2019 08:26

A propósito de idade, perguntam se tenho saudade do que ficou de mim, nesses meus 93 anos de vida. A velhice que me faz recuar a outros tempos, não me arrefece em recordar infindáveis lembranças. Nasci no engenho São Francisco entre os canaviais e o mar de Ipojuca, tempo depois, ainda pequenina com os meus pais, voltamos aos engenhos da família em Bom Jardim, cidade de serras, que se aconchegam umas às outras.

Parafraseando o grande pintor Cícero Dias na obra Eu vi o mundo, ele começava no Recife; eu diria: Eu vi o mundo e ele começava em Bom Jardim! A velha cidade ditou-me as cores, levando os meus pincéis a colorir minhas telas, muitas já distanciadas de mim. Tenho a consciência de que o artista com o seu poder inventivo e de resistência pode ser tudo e pode ser nada. Em artigo recente, o amigo, Mestre Raimundo Carrero, na sessão semanal do Diario de Pernambuco, em 18 de setembro último, escreve: “Costumo dizer que o artista cria porque não está satisfeito com o mundo em que vive. Por isso precisa de outro. Ou de outros. Mundos. (...) por isso acredito na resistência artística.”

Em Bom Jardim faço ancoragem, não de um tempo morto, muito ao contrário, de um tempo onde a minha memória transita, recolhendo as coisas boas que me aconteceram. Quando adolescente, ano após ano, escrevi os meus diários em blocos, intitulados “Cadernos de uma Provinciana”. Estudei piano com as freiras alemãs e tocava sempre nas festinhas do Colégio Santana. As freiras enclausuradas no belo sobrado de azulejos portugueses, com desenhos da cor amarela em alto relevo, que pertenceu ao Dr. Austerliano Correa Crastro, bisavô dos meus amigos, os irmãos Santuza e Francisco Bandeira de Mello, meninos em Bom Jardim. As freiras instalaram ao lado da clausura o corpo do colégio, por onde circulei entre as salas de aulas enquanto durou o meu rápido “curso primário.” Em seguida, meus pais me transferiram para o Colégio São José, de freiras Dorotéias, no Recife. As madres beneditinas alemãs não me perdoaram por isso.

Com o diploma do curso pedagógico, meus pais alegres, receberam familiares, parentes e amigos para almoço em regozijo. Cambraia, o cozinheiro, veio do engenho preparar o almoço. Não era à toa sua fama de bom cozinheiro especialmente no preparo de doces como papo de anjo, pastéis de festa, filhoses, pudim de tapioca. A tarde entrou pela noite com músicas, danças, boas conversas, namoros entre os primos: Alda, Diva, Mirtes e Carmem Motta Barbosa, excelente pianista, namorava o poeta Mário Souto Maior, os dois, desafiaram uma tenaz rivalidade política entre suas famílias. Meu pai, primo e amigo fez o pedido do noivado. Ambos, Carmem e Mário saíram da reunião com as alianças na mão direita. Sob qualquer pretexto improvisava-se uma festa, que chamavam de Assustados: invasão às casas de parentes e amigos, com música, danças até tarde. Em uma delas meu primo pretendendo ser meu namorado, tirou-me pra dançar. Médico formado no Rio de Janeiro, Sebastião Souto Maior veio para as despedidas na sua cidade,´ voltando em seguida ao Rio, como oficial médico, integrante do 2º Batalhão da Força Expedicionária brasileira, rumo à Itália. Daquela passada noite, o antigo relógio “capelinha” na parede da sala, sinalizou as badaladas da meia-noite, anunciando o final das brincadeiras, e o adeus sem volta, do Dr. Sebastião Souto Maior

Em Bom Jardim o trem da Great Western, sempre atrasado, retardava na entrega do único jornal em circulação, o Diario de Pernambuco. A edição de 3 de fevereiro de 1944 trazia o decreto da minha nomeação, pelo Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco, Dr. Silvio Rabelo, nomeando a professora Marly Barbosa de Arruda para lecionar no Grupo Escolar Raimundo Honório, em Bom Jardim. Tempos depois recebido do amigo, poeta José D. Felix, do Jornal do Agreste, de Surubim

Final da Segunda Guerra Mundial fomos morar no Recife, com a mudança deixei para trás a minha nomeação de professora. Nesta vida veloz e ambiciosa, muitos foram os caminhos, doces e amargos, Ninguém é imune aos sofrimentos. Entre nós, sentada, estava Dona Naná, nossa parenta, velha e cega, prolongando seus lamentos, dizia alto: “Cada um no seu canto, chora o seu pranto.” Nos rumos desta vida, antes tarde do que nunca, confesso aos meus poucos e benevolentes leitores, recrio o meu mundo de solidão e saudades, prestes a completar mais um ano em janeiro próximo. Para colorir esta tarde do dia 21, há exatos 10 anos , tomei posse na Academia Pernambucana de Letras, em 21 de setembro, começo da primavera.

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