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Opinião
As coisas e seus nomes

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicado em: 23/10/2019 03:00 Atualizado em: 23/10/2019 09:13

Na origem do mundo, segundo a cosmogonia dos hebreus, o primeiro homem teria recebido a tarefa de dar nome a cada espécie animal; ao lado da palavra divina de criação, a palavra humana de nomeação. Já de acordo com os antigos gregos, haveria uma relação entre a natureza das coisas e seus nomes; para eles, a etimologia não era propriamente o estudo da evolução das palavras, mas a busca do seu significado genuíno – “étymos” significava “verdadeiro”, “real”. No entanto, foram os mesmos gregos que começaram a questionar essa relação supostamente natural entre as palavras e aquilo que elas nomeiam, a disputa entre naturalistas e convencionalistas polarizou o pensamento clássico sobre a linguagem. Na modernidade, coube a um dos pais da linguística, Ferdinand de Saussure, dar pleno reconhecimento ao princípio da arbitrariedade e da convenção do signo verbal, isto é, à noção de que uma palavra significa apenas o que é acordado por uma comunidade de fala.

Embora a linguagem envolva muito mais do que o mero ato de nomear, é inegável que a capacidade de referir as coisas por meio de palavras trouxe à espécie humana uma vantagem cognitiva imensurável – ainda mais quando entre essas coisas estão abstrações como qualidades, estados e ações. É com essa tessitura verbal que é feito o universo humano, a par do universo físico. Não podemos dar conta de cada objeto que ocupa um lugar no espaço, ou de cada evento que se desdobra no tempo; mas, com as palavras, podemos articular nossas experiências e organizar nossas ações. A dimensão verbal se interpõe entre nossos sentidos e a complexidade do mundo, conferindo estrutura e significado a essa relação. Não sem motivo, o filósofo da linguagem J. L. Austin acreditava que uma consideração atenta das sutis distinções presentes no discurso comum poderia levar também à percepção de importantes diferenciações no mundo ao nosso entorno.

Em seu longo desenvolvimento, o estudo da linguagem foi reservando à etimologia a tarefa de reconstruir a história das palavras. Já em tempos mais recentes, estabeleceu-se a investigação sistemática dos fenômenos de forma e significação relacionados ao vocabulário de uma língua – a lexicologia. Com a crescente sofisticação do conhecimento humano pela via da ciência e da tecnologia, palavras foram surgindo e outras recebendo novos sentidos, de modo a possibilitar um tratamento mais preciso dos temas pertinentes às diversas especialidades; esse conjunto de termos técnicos constitui hoje o foco de um ramo especial de investigação – a terminologia. O resultado de toda essa devoção ao escrutínio do enigma posto pela capacidade especificamente humana de dar nome às coisas se oferece aos olhos mais leigos sob a forma tradicional do dicionário, que é o produto final do ofício da lexicografia.

Porém, enquanto os estudiosos, ao longo dos séculos, dedicaram continuada atenção à forma, ao significado e à história das palavras, o usuário comum da língua se mostra frequentemente alheio à riqueza contida no vocabulário de seu idioma. Embora, entre nós, expressões como “o Aurélio” ou “o Houaiss” sugiram intimidade com essas grandes realizações lexicográficas nacionais, a consulta ao “pai dos burros”, como a referência popular sugere, parece, em si, um demérito ao consulente. Se a nossa escola empresta, de bom ou mau grado, alguma importância ao manejo da gramática, o  recurso ao dicionário não tem recebido a atenção necessária. É verdade que a tecnologia da informação, com seu ágil e sempre renovado aparato, vem impingindo uma drástica transformação à metodologia e aos produtos da lexicografia; mas, se mudam formatos e procedimentos, os fins e a relevância do ofício permanecem os mesmos.

“Penetra surdamente no reino das palavras”, recomendou Carlos Drummond de Andrade ao poeta em busca da poesia. Talvez o conselho possa e deva ser direcionado também ao prosaico consulente de um dicionário. Ao poeta, Drummond garantiu: “Lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Ao consulente, porém, não deveria bastar a imediata solução de suas dificuldades no trabalho de ler ou elaborar um texto. “Chega mais perto e contempla as palavras”, insistiu ainda Drummond, pois elas têm “mil faces secretas sob a face neutra”. Caso resolva ouvir o conselho, talvez o eventual usuário de um dicionário descubra que, como afirmou o filólogo e dicionarista Alexander Souter, “os lexicógrafos podem alegar que conhecem algumas das alegrias e excitações de todo explorador”. E decida – quem sabe? – tomar parte nessa aventura.

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