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Opinião
Editorial Argentina pós-eleição

Publicado em: 29/10/2019 03:00 Atualizado em: 29/10/2019 09:03

A sabedoria popular diz que vizinho não é escolha. É destino. A afirmação vale para pessoas e nações. Com a extensão territorial de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o fado traçou as fronteiras do Brasil com praticamente todos os países que o contornam. Só Chile e Equador ficaram de fora.

É natural que as relações nem sempre sejam harmoniosas. Não só neste subcontinente, mas também nos demais. Desde que Donald Trump assumiu o poder, por exemplo, trava queda de braço com o México. Quer voltar à Idade Média e construir um muro para impedir que emigrantes ultrapassem os limites dos dois mundos.

Brasil e Argentina também viveram períodos difíceis. Vale lembrar um caso. Durante o governo militar, a negociação para construir Itaipu — cheia de idas e vindas — parecia missão impossível. Chamada, a diplomacia arredondou as arestas e hoje os dois lados usufruem a energia da hidrelétrica.

Bons momentos também figuram nos anais de Brasília e Buenos Aires. O mais alvissareiro é a assinatura do Tratado de Assunção em 1991. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai criaram o Mercado Comum do Sul — o Mercosul, que alargou as fronteiras dos quatro membros e os sintonizou com o mundo globalizado.

Em 2019, o bloco econômico, depois de 20 anos de avanços e recuos, firmou acordo com a União Europeia. As perspectivas são alentadoras. Além de baratear produtos, deve forçar eficiência e produtividade. Há previsão de troca de tecnologia e avanços na inovação. A indústria brasileira, defasada em decorrência da longa estagnação econômica, prepara-se para a nova fase. A do país vizinho alimenta a mesma expectativa.

Afundada em profunda crise econômica — a pior desde 2001 —, a Argentina foi às urnas no domingo. Elegeu, embora com margem menor do que se esperava, a coalizão Frente de Todos. Na cabeça da chapa, o peronista Alberto Fernández. Como vice, a ex-presidente Cristina Kirchner. A vitória devolve o kirchenismo ao poder.

Durante a disputada campanha presidencial, ficou pouco claro o programa econômico da dupla vencedora. Fernández define-se um liberal de esquerda, progressista, que acredita nas liberdades individuais e na importância da presença do Estado para o que o mercado precisar.

Em 2018, a Casa Rosada obteve empréstimo de US$ 57 milhões do Fundo Monetário Internacional em troca de severo ajuste fiscal. Recebeu US$ 44 milhões. O FMI reteve a parcela de US$ 5,4 bilhões, prevista para setembro, a fim de esperar o resultado da eleição.

A grave crise em que se debate o país — com queda de 2,5% do PIB, inflação próxima de 40%, desemprego de 10,6%, a pobreza acima de 35%, taxa de juros além de 80% — deixa recado ao presidente que assume em dezembro próximo: pragmatismo é preciso.

Mauricio Macri, candidato derrotado, deu provas de civilidade ao convidar Alberto Fernández para o café da manhã no dia seguinte às eleições. É bom sinal. Transição tranquila e respeito aos contratos dão aceno aos mercados e aos parceiros de que aventuras estão descartadas. Bravatas também.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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