Pequena homenagem ao grande Murilo Guimarães

Eduardo Sertório
Desembargador

Publicado em: 17/09/2019 03:00 Atualizado em: 17/09/2019 09:43

Este ano Dr. Murilo completaria 110 anos de vida. Ter sido seu assistente e com ele convivido tanto profissional quanto pessoalmente, foi o que de melhor poderia ter me acontecido.

Para os eventuais jovens leitores, no Recife, quando se fala em Dr. Murilo, a referência é a Murilo de Barros Guimarães, advogado, professor catedrático de Direito Comercial da Faculdade de Direito do Recife, instituição da qual foi diretor, além de ter sido reitor da Universidade Federal de Pernambuco.

No último 6 de setembro ele completaria seus 110 anos de vida.

Venho prestar minha singela homenagem àquele que me aceitou em seu escritório de advocacia de maneira paternal, sem levar em consideração posições políticas.

Sua exigência era com a ética e com os estudos. Aprendi muitas vezes com o seu silêncio muito do que sei da vida.   

Do ponto de vista profissional, ensinou-me quase tudo. Destaco um dos ensinamentos marcantes. Certa feita, vendo uma dificuldade minha, disse apenas: “Seria muito fácil fazer-se um advogado em 2 anos.”  Aquilo me calou fundo e me deu uma segurança enorme para continuar meus estudos e minha vida da maneira habitual. Vacinei-me contra a pressa dos tempos modernos.

Outra grande lição dele recebida: começamos a conversar sobre a possibilidade de cobrarmos pela consulta. Ele era contra. Indaguei-lhe então, se ele seria ressarcido pelo tempo com o cliente que acabara de atender. Resposta: “Este senhor é o gari que recolhe o lixo aqui da rua. Ele veio fazer uma consulta.”  Em menos palavras: não fazia nenhuma distinção entre os que o consultavam.

Não vou mencionar as visitas dos professores das universidades europeias quando vinham ao Recife, nem das vezes em que foi examinador nos concursos para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, minha querida São Francisco. Vou somente lembrar seu relacionamento com os advogados que escreveram a história das letras jurídicas neste estado. Entre eles destaco dois: João Pinheiro Lins e Ruy Antunes. Cada um deles possuía uma posição política diferente. Dr. Murilo era monarquista. Dr. Pinheiro era de direita e Dr. Ruy, de esquerda. No entanto, a convivência entre eles era pacífica e farta em troca de ensinamentos. Bons tempos!

Farei apenas mais dois destaques. Dr. Murilo era sobretudo um advogado. Certa feita, pedi-lhe uma indicação bibliográfica para sustentar uma tese que eu estava defendendo. Sua biblioteca tinha mais de 20 mil livros. Ele, generoso como sempre, pesquisou e me trouxe a resposta, com a seguinte observação: “O autor só defende tal tese até a 3ª edição. A partir da 4ª ele mudou seu ponto de vista...”

Encerro com um exemplo da grandeza de Dr. Murilo. Depois de quase 20 anos como seu assistente (ele assim me apresentava), movido por meus ideais, fui para carreira solo. Foi muito difícil dizer ao amigo, ao amigo com quem conversava sobre amor e solidão, minha decisão. Ele ouviu e disse apenas: “Vá. Se não der certo, você volta.”

Viva, Murilo Guimarães.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.