Diario de Pernambuco
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Opinião
O prefeito de uma página

Gildson Vieira
Professor de História

Publicado em: 14/09/2019 03:00 Atualizado em: 14/09/2019 07:07

É preciso deixar ao menos duas coisas claras, porque 2019 parece ser um ano em que um reforço didático se faz necessário cada vez mais. A primeira é óbvia: misturar denominação religiosa com a administração pública exclui, discrimina e impõe certo tipo de ideia que pode sim ser classificada como autoritária. A segunda coisa a ser clareada deveria ser óbvia: nem todo quadrinho é feito para crianças. Ao resto, cabe à família decidir o que é ou não impróprio.
 
Fico demasiado curioso para saber o que o prefeito do Rio de Janeiro e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella, tem a dizer de Batman: The Dark Knight Returns, de Frank Miller, ou de Watchmen, de Alan Moore. E aqui caberiam inúmeros exemplos. No caso específico, Crivella sentiu-se imbuído da tarefa terrena de cuidar das crianças e adolescentes, protegendo as famílias de uma página do quadrinho da Marvel Comics, o Vingadores: a cruzada das crianças, de Allan Heinberg e Jin Cheung, publicado há 10 anos.
 
Em resumo, o quadrinho faz parte de uma série longa que conta a história de que o mutante Wiccano perde os controles de seus poderes, deixando alguns vilões extremistas inconscientes. Os Vingadores, temendo seu poder e da possibilidade de Wiccano ser filho da poderosa Feiticeira Escarlate, o levam para seus cuidados. Mesmo assim, Wiccano segue em busca de sua suposta mãe, como busca de redenção própria ou para consertar seus erros; esta é a Cruzada em que os jovens vingadores dão início e que em 9 volumes encontram os mais diversos personagens do Universo Marvel, como Wolverine, Magneto e Doutor Destino.
 
Num dos últimos momentos da saga, quando os violentos conflitos entre heróis e vilões (que não chamaram atenção de Crivella) já haviam cessado, há uma cena de afeto e de beijo entre Wiccano e Hulkling, outro jovem vingador (até heróis precisam de afeto). Isto mesmo: A cruzada das crianças não gira em torno de homoafetividade nem tenta pedagogizar isto, como faz crer o prefeito do Rio; o que há, para além de sua homofobia que não surpreende, é um processo de aproveitamento de um sentimento moralizante que a sociedade brasileira ainda nutre e se refugia como pertencimento num país cada vez mais violento e desigual. Crivella, e ele não está só, fundamenta-se na ideia de que a cena de um beijo entre pessoas de um mesmo sexo biológico faz com que qualquer pessoa ESCOLHA ser gay; ora, isso é o mesmo que acordar em plena terça-feira, ligar a televisão, ver uma cena de propaganda de brócolis e dizer “pronto, hoje eu escolhi gostar de brócolis”. E todo mundo sabe que brócolis é uma delícia e que você só DESCOBRE que gosta dele.
 
Em 2020 o Marvel Studios lança o filme Os Eternos e, segundo o produtor Kevin Feige, terá o primeiro “personagem abertamente gay”, com direito a família homoafetiva, inclusive. Talvez, para esta missão, fosse o caso do Crivella adotar uma prática comum aos seus correligionários e comprar todos os ingressos nas bilheterias país afora, afinal, é trabalho árduo. Vale lembrar que, além disto, ele ainda é prefeito.

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