Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Opinião
O legado de Cid Sampaio

Sylvio Belém
Oficial de gabinete e secretário particular do governador Cid Sampaio

Publicado em: 11/09/2019 03:00 Atualizado em: 11/09/2019 10:09

Em 1957 o então governador de Pernambuco general Cordeiro de Farias enviou para a Assembleia um projeto de novo código tributário, que trazia um substancial aumento de impostos, o que provocou a reação das denominadas classes produtoras, indústria e comércio, sob a liderança do presidente do Centro das Indústrias, empresário Cid Feijó Sampaio. A iniciativa do governo foi derrotada pela pressão das ruas, surgindo o embrião de sua candidatura nas eleições do ano seguinte.

O PSD, partido que detinha o poder desde a redemocratização em 1946, estava unido na busca pela manutenção do governo, sob a liderança do ex-governador Etelvino Lins e lançou como candidato o senador Jarbas Maranhão, cuja candidatura era considerada amplamente favorita. A oposição, ainda sob os efeitos da repercussão da campanha contra o código tributário fixou-se no nome de Cid numa aliança histórica com as forças de esquerda, representadas pelo engenheiro Pelópidas Silveira como candidato a vice governador.

Com o transcorrer da campanha, a chapa de oposição foi crescendo e empolgou todo o estado, chegando a uma estrondosa vitória em 3 de outubro de 1958. No Recife, o triunfo foi obtido em todas as urnas, à exceção de uma localizada no colégio das Damas onde votaram as freiras daquele educandário de ensino. O arcebispo dom Antonio de Almeida Morais Junior havia tomado partido abertamente contra a candidatura oposicionista, notadamente após um grande comício no largo de Casa Amarela com a presença do líder comunista Luiz Carlos Prestes e realizado sob o som dos sinos das igrejas badalados por ordem da arquidiocese.

Cid foi um renovador e inovador que implantou um novo modo de se comunicar com o povo nos comícios, usando termos até então desconhecidos para a grande maioria da população, levando o prefeito de Caruaru Drayton Nejaim a dizer que “as pessoas pensavam que industrialização, renda per capita e desenvolvimento eram os candidatos a vice-governador e senadores.”

Diante da histórica derrota, Cordeiro de Farias renunciou ao cargo e voltou para o sul do país, passando a chefia do governo para o deputado Otavio Correia, presidente da Assembleia. Começou então um processo intitulado pela imprensa de política de terra devastada, através do qual o grupo político derrotado promoveu uma série de ações em proveito próprio e de seus correligionários, objetivando inviabilizar os planos do novo governo. As lideranças empresariais e sindicais se insurgiram e ameaçaram convocar o povo para invadir a Assembleia e jogar os deputados no Capibaribe sustando tais ações nefastas.

Na campanha eleitoral de 1958 pela primeira vez apareceu o trabalho de um marqueteiro, um paulista de nome Albano, criador do mote “o povo é quem diz Cid (decide)”. Mais tarde, por ocasião do carnaval de 1959, o mais animado do Recife, cidade que havia dado quase 80% a Cid, o imortal maestro Nelson Ferreira compôs a marcha Bloco da Vitória que dizia: “O bloco da vitória está na rua, desde que o dia raiou, vamos minha gente no nosso cordão, que a hora da virada chegou. Quando o povo diz Cid cair na frevança não há quem dê jeito.....”

Nos seus quatro anos de governo Cid Sampaio mudou radicalmente a maneira de governar, iniciando o processo de industrialização, cujo marco principal foi a fábrica de borracha sintética no Cabo, que ele não teve a alegria de inaugurar por conta de injunções políticas de seus adversários que evitaram a concessão pelo Cacex da licença de importação das máquinas que vinham dos Estados Unidos. Várias outras indústrias foram implantadas no estado, ao mesmo tempo em que criou a Companhia de Revenda e Colonização (CRC), Companhia de Industrializaçãodo Leite (Cilpe) e Companhia de Armazéns Gerais de Pernambuco (Cagep). No seu governo também a Caixa de Crédito Imobiliário foi transformada no Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe)

Aquela velha política de exercer o poder com nomeação, demissão e transferência de professoras, delegados de polícia e coletores foi substituída por outra, voltada para os mais legítimos interesses da população. Durante todo seu mandato Cid contou com o apoio e lealdade do vice-governador Pelópidas, que também teve sua trajetória política como grande prefeito de Recife. No período que esteve à frente do estado dedicou-se com total empenho às coisas do estado, não havendo registro que tenha se afastado um dia sequer por motivo de férias ou qualquer licença.

Sua última participação política ocorreu em 1982, quando concorreu à eleição para o Senado pelo MDB na chapa do candidato a governador Marcos Freire, numa campanha que empolgou o estado, sendo todavia derrotados pela manobra da Arena criando o chamado voto vinculado e sublegenda, que obrigavam o leitor a votar em candidatos do mesmo partido de vereador a governador.

Hoje ao reverenciá-lo constato com tristeza que Pernambuco muito lhe deve, desde que inexiste em todo o estado uma obra de porte médio ou grande com o seu nome. Ainda é tempo para que políticos  jornalistas, pesquisadores e historiadores corrijam essa injustiça e deem a Cid Sampaio o verdadeiro lugar que ele merece na nossa história.

Lula: sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia
Resenha SuperEsportes: o quase do Sport, sub-20 do Santa e eleições no Náutico
De 1 a 5: artistas que trabalham com barro
Sobe, Lia, sobe.
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco