Diario de Pernambuco
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Opinião
O benfeitor

Ricardo Leitão
Jornalista

Publicado em: 06/09/2019 03:00 Atualizado em: 06/09/2019 10:12

Matura entre jornalistas a decisão de conceder a Jair Messias Bolsonaro o título de benfeitor da Imprensa brasileira em 2019. O ano está longe de terminar mas é improvável que, até o fim de dezembro, outro personagem se destaque, com tanta galhardia, na produção de notícias e caneladas, em todas as direções, com repercussão no Brasil e no exterior.

A pauta é diária, polêmica e diversificada. Vai desde cadeirinhas para bebês em veículos; flexibilização da compra e porte de armas e desmonte da política cultural até a militarização das escolas públicas. Qual outro mandatário brasileiro, em apenas oito meses de gestão, produziu tantos fatos relevantes para jornais, televisões rádios e blogs? Com certeza, nenhum.

De tão benfeitor, Bolsonaro chegou a criar uma nova função para repórteres: o de plantonista no portão do Palácio da Alvorada, onde reside, posto disputado. É lá, no portão, onde para todos os dias, logo cercado por câmeras e microfones, que o presidente faz o primeiro disparo contra o inimigo do dia. Sempre dá caldo, como se diz no jargão jornalístico. Quando as perguntas se tornam mais incômodas e o caldo engrossa, Bolsonaro encerra a entrevista coletiva intempestivamente ou, pouco depois, nega o que afirmou – o que produz novas manchetes. É insuperável.

A alta temperatura do debate internacional sobre as queimadas na Amazônia é um bom exemplo. O presidente abriu os trabalhos denunciando que o levantamento do próprio governo brasileiro sobre o número de focos de incêndios estava errado. Depois acusou as Ong’s “esquerdopatas” de incendiárias; em seguida, voltou-se contra os governadores da região, que seriam coniventes com os incêndios; recusou ajuda dos sete países mais ricos do mundo para conter o fogo mas aceitou o socorro da Inglaterra, que está entre os sete. Em um choque diplomático sem precedentes, atacou e foi atacado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ofendeu a primeira-dama da França e convocou as Forças Armadas para enfrentar as fogueiras. Com a fumaça impedindo a operação de aeroportos regionais, foi publicamente chamado de “mentiroso” pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Igreja católica brasileira, respeitado internacionalmente.

Quem faria tanto em tão pouco tempo? Só um presidente comprometido com o futuro do jornalismo no Brasil. Claro que há pequenas desavenças na relação do benfeitor com eventuais beneficiários. Como tornou-se regra dizer, “faz parte do jogo democrático”. No entanto, convenhamos, quem no meio de tantos problemas – a exemplo da metodologia de defecar em rodízio – suportaria ser questionado, sem tréguas, por repórteres, colunistas e analistas sem amor à pátria?

É evidente que esse pessoal precisa ser disciplinado. O benfeitor não propaga a perseguição e a censura – longe disso, vivemos em um Estado de Direito. Porém algumas providências sempre são necessárias. Coisas suaves, para deixar evidente quem é que manda: cortar verbas publicitárias, boicotar veículos de adversários, dificultar o acesso de repórteres não domesticados a informações públicas e difundir um clima persecutório, no qual todos são permanentemente monitorados. Ações discretas, todavia nem por isso menos eficientes.

Até onde irá a tensa relação entre o verborrágico proclamador de notícias e os jornalistas é uma incógnita. Da parte do potencial benfeitor da Imprensa em 2019, ela pode evoluir até o retorno da censura, como já se cogitou. Da parte dos jornalistas, que por enquanto reagem com profissionalismo diante da incontinência verbal, pontuada com escatologia e palavrões, alguém pode rebater no mesmo nível. Lamentavelmente, no nível a que foi rebaixada a fala bolsonariana, no envergonhado Brasil de setembro de 2019.

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