Meu amigo Zé Carlos Viana

Raul Henry
Deputado federal

Publicado em: 06/09/2019 03:00 Atualizado em: 06/09/2019 09:42

Conheci Zé Carlos Viana em 1992, na segunda campanha de Jarbas para a Prefeitura do Recife. Ele integrava um grupo de artistas plásticos do qual faziam parte João Câmara, Delano, Ferreira, Sílvia Pontual, Zé de Moura e muitos outros.

Em 1995, Jarbas me convidou para assumir a Fundação de Cultura do Recife. Era um tempo de muita efervescência cultural: revitalização do Bairro do Recife, Mangue Beat, Abril pro Rock, filmagem do Baile Perfumado, “brodagem” na soparia de Roger.

Além de apoiar as diversas iniciativas da época, tomamos, na Fundação, a decisão de também impulsionar as artes plásticas. O nome escolhido para a missão foi o de Zé Carlos. O primeiro passo seria recuperar a Galeria Aluísio Magalhães e resgatar para o estado um espaço digno para exposições.

Com a inauguração do agora Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães, já na gestão de Roberto Magalhães, iniciamos uma intensa programação de restauração de acervo, realização de cursos e promoção de grandes mostras. Foram executadas belíssimas montagens com artistas pernambucanos. Também foram expostos monstros sagrados da arte universal, como Goya e Rodin. O sucesso foi monumental. À frente do trabalho estava o competente, incansável e vibrante Zé Carlos Viana, sempre apoiado pelos colegas, com destaque para João Câmara e Emanoel Araújo, que abriam as portas dos curadores no Brasil e no exterior.

A partir de 1999, com Jarbas governador, Zé Carlos repetiu esse esforço, agora na recuperação e ampliação do então decadente Museu do Estado. Hoje, esse é o espaço público melhor concebido para grandes exposições de artes plásticas em Pernambuco.

Além do compromisso com os cargos que exercia e com sua própria produção artística, Zé estava sempre gerando ideias novas. Uma delas foi o polo cultural da Serra Negra, em Bezerros. Nos anos 1990, ele fizera amizade com o prefeito da cidade, Lucas Cardoso, que tinha uma casinha no topo da Serra. Ao chegar lá, diante da exuberância da paisagem, Zé Carlos teve mais um dos seus insights. Por que não construir ali um polo único em Pernambuco que reunisse beleza natural, cultura e turismo? As obras foram iniciadas, com a edificação de um anfiteatro, mas, com o fatídico falecimento de Lucas, não foi possível concluir todo o projeto. Hoje, a Serra Negra é um sucesso retumbante e pouca gente sabe dessa paternidade de Zé Carlos Viana.

Além de realizador na esfera pública, Zé Carlos foi um artista extraordinário. Não tinha receitas prontas. Tudo dependia do momento que estivesse vivendo. Suas fontes de inspiração eram múltiplas. Deixava a imaginação vagar livre e executava sua pintura com puro talento e maestria técnica, mas sem amarras ou restrições de estilo. O resultado do trabalho era, muitas vezes, surpreendente. Zé também era culto, tinha repertório. Morou na Inglaterra e nos Estados Unidos e teve o tempo necessário para investir na sua formação. Não é exagero afirmar que ele tem um lugar garantido na galeria dos maiores artistas de Pernambuco. Se não obteve esse reconhecimento em vida é porque seu desprendimento extremo o impediu de ter o mínimo de zelo com sua carreira e sua obra.

Para mim, no entanto, a maior dimensão de Zé Carlos Viana está além da do realizador e do artista. Sua maior dimensão foi a humana. Zé foi uma das pessoas mais inteligentes, sensíveis, genuínas, íntegras, generosas e criativas que conheci. Amigo afetuoso, leal e solidário com todos os que usufruíram da sua convivência. Amava viver a vida como se fosse o último dia. Era um homem livre, na essência. Desfrutou da plenitude da existência, sem fazer concessões. Era autêntico, verdadeiro, não fazia gênero. Sua ironia era leve e bem-humorada. Não cultivava ressentimentos, nem os pensamentos opressivos que permeiam nossa luta diária. Lula Queiroga foi quem melhor definiu: a amizade de Zé Carlos era um espaço lúdico, de prazer e fantasia.  Um espaço único, que nos remetia a esse estado de espírito.

Há cerca de um mês, o convidei para ir a Bezerros para uma reunião política. Meu propósito era poder estar com ele durante a viagem e me abastecer de ideias agradáveis e bons sentimentos. Tive a oportunidade de dizer que minha agenda andava muito corrida, mas me confortava saber que ele viveria mais de cem anos e que teríamos muito tempo para conversar. Foi nosso último encontro. Zé Carlos partiu sem se despedir e nos deixou um vazio que jamais será preenchido. No seu lugar, apenas a imensidão da saudade.

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