Lugares de questionamento e lazer

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 03/09/2019 03:00 Atualizado em: 03/09/2019 09:33

Ele mora em Afogados da Ingazeira, é poeta e animador cultural naquela cidade da qual só o nome faz sonhar, como diria Ascenso Ferreira. Alexandre Moraes, que conheci num desses encontros que o Sesc organiza, em cidades do interior de Pernambuco, é uma dessas pessoas que contribuem a difundir saber, criando ocasiões de encontros literários, feiras de livros, recitais, representações teatrais, para a gente distante da efervescência (?) da capital. Naquele encontro em Arcoverde, organizado por Cida Pedrosa, artistas diversos falavam de suas obras, comentavam produções alheias, em debates, palestras, ou durante as refeições, um deleite. Ali estava o cartunista Lin, fazendo-nos mergulhar no seu mundo de personagens críticos de nossas mazelas ou olhando a realidade através da poesia. Ali estavam Marcelino e Wilson Freire apresentando delicioso vídeo sobre a senhora mãe deles, uma surpreendente e maravilhosa mulher viajando em busca do tempo perdido, na volta aos lugares onde vivera, reencontrando um antigo umbuzeiro, as paisagens presentes ali e na memória. Ali estava o pessoal do Cordel do Fogo Encantado. E vários escritores da melhor raça pernambucana, falando de suas obras, como Cícero Belmar, como o poeta e contista Alexandre Furtado, que nos apresentou a poesia e o trabalho de tradutor de nosso pernambucano Geraldo de Holanda Cavalcanti. Em tudo isso, o prazer de conhecer mais de perto pessoas que compartilham conosco a alegria de criar, de dividir experiências. Pois Alexandre Moraes apresentou, cantou, recitou, a volta do nordestino imigrante ao sertão natal, reencontrando o pátio varrido com galhos de mato, o cheiro da comida chegando até o roçado ali perto. Agora Alexandre me envia pequeno vídeo sobre a realização de projeto executado entre a gente da cidade e sobretudo professores e escolares, a descoberta do museu, como espaço de aprendizagem, cultura e conhecimento da memória. Durante alugumas semanas, 52 escolas foram engajadas, 2500 participantes, entre adultos e crianças, visitaram o Museu da Radio Pajeú, conheceram ´por dentro o funcionamento físico e cultural da instituição, estudaram técnicas e arte da palavra. Tudo isso com o patrocínio da Fundação Cultural Senhor Bom Jesus, do Pajeú. Esse tipo de realização de cunho social, cultural e até econômico, nos leva a considerar o lugar de museus em nossa formação, e entre tantas outras coisas, o papel que desempenha em nossa consciência de brasileiros, do que nos formou e que pode e deve ser conservado, incentivado, ajudado, visitado, enquanto relicário e reserva viva de nosso passado. Um fato novo talvez: o crescente interesse dos brasileiros por esses lugares de memória, e de exposições que revisitam de algum modo, momentos e movimentos de criação, de inovação na releitura do que passou e marcou uma época. A exemplo da retrospectiva da obra de Tarsila do Amaral, em S. Paulo, as enormes filas de visitantes redescobrindo um tempo de Brasil, na beleza das paisagens, no apelo social que retoma o operário da grande cidade ou o camponês em seu labor. Nosso país é rico em museus e o Recife não fica atrás na quantidade, e no valor dessas instituições que tanto dizem de nós. Disso falaremos na semana que vem. Até lá, então.

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