É claro, Mariana

Gilberto Marques
Gilberto Marques faleceu sexta-feira (20). O texto acima é de 11 de outubro de 1983, com o qual ele concluiu sua acusação durante o julgamento do procurador Pedro Jorge de Melo e Silva, no qual atuou como advogado de acusação. É uma adaptação de crônica (com o mesmo título) de Sebastião Vila Nova. Tanto Gilberto quanto Sebastião tiveram filha chamada Mariana.
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Publicado em: 23/09/2019 08:58 Atualizado em:

É claro, Mariana, que é dos teus olhos que preferia falar nesta crônica. É claro. Mas há homens que fizeram profissão de fabricar tristeza sobre a terra, de criar dor e sombra no coração dos indefesos. E é necessário denunciar esse tipo de gente que maquina contra a vida. É claro, Mariana, que eu preferia mil vezes proclamar a tua beleza, a tua leveza de bailarina. Mas há gente planejando a morte dos peixes dos rios de nossa cidade e de muitos outros lugares da terra que Deus nos deu para viver com alegria. Homens que privam outros homens da alegria pura de compartilhar pacificamente o pão com suas companheiras, com seus filhos. É claro, Mariana, que eu preferia mesmo falar da tua graça, da graça dos teus gestos. É claro, Mariana, nem se discute. Mas acontece que há homens que esbanjam o que foi tirado de muita criancinha faminta pelas estradas deste Nordeste e de todos os Nordestes do Brasil. Há muita criança que jamais sentiu a alegria simples de estar no mundo entre os frutos e os animais que Deus pôs sobre esta terra. Há muitos homens que sofrem pelas ruas do mundo por não ter o que comer e, sobretudo, por voltar de mãos vazias para os seus filhos. E é preciso não calar diante da dor que poderia ser evitada.

É claro, Mariana, que o que eu queria mesmo era falar da música da tua voz. Mas não neste mundo de tanta conspiração contra a vida, não neste mundo de tanta apreensão, de tanta injustiça. É claro, Mariana, que eu queria falar do teu sorriso, do teu riso de alegria. Mas há muita arrogância, muito desamor, muito orgulho no coração dos homens que não pensam senão em amealhar dinheiro, poder e outras coisas que, seguramente, valem muito menos do que o sorriso de uma criança. Há muita gente que só pensa em multiplicar a infelicidade. É claro, Mariana, que preferia mesmo falar da paz do teu rosto, quando adormeces, é claro, Mariana. Mas há muito choro pela noite adentro, pelos caminhos distantes da alegria dos sertões do mundo. Há muita aridez no coração de quem vive para construir amargura, para edificar a morte. E é preciso falar também da solidão dos humilhados, da grande tristeza dos ofendidos. É claro, Mariana, que é das nossas tardes que eu preferia falar, das tuas perguntas sobre o mundo e sobre a fala dos homens,  é claro, Mariana. Mas não há como fugir do olhar sinistro dos que perderam a esperança, dos que só têm de si o dia que Deus dá, dos que já não têm outra coisa a fazer senão vagar pelas estradas do mundo, pelas ruas do medo. E é preciso emprestar a voz aos que não as têm.

É claro, Mariana, que eu preferia falar da coragem amena, discreta e firme de tua mãe, do meu amor por ela. É claro, Mariana, que eu queria ver nos olhos de Roberta e Marisa, filhas de Pedro Jorge, o mesmo brilho que eu vejo nos teus olhos quando me abraças. É claro, Mariana, que eu preferia falar da alegria de compartilhar das tuas esperança, é claro minha filha, Mariana, é claro. E amordacei minha boca para que não gritastes e ceguei meus olhos para que não visses. E quanto mais cego mais vias e quanto mais amordaçado mais gritavas. Minha vida foi uma eterna luta para que ninguém mais tivesse que lutar. Esse é o canto que te quero cantar, Pedro, meu filho., Como José Florentino , pai de Pedro Jorge, eu também sou pai de um Pedro. Pedro Jorge não morreu, ele se repartiu em milhares de pedaços e de cada pedaço há de nascer um Pedro inteiro para continuar sua luta pela Justiça.

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