Diario de Pernambuco
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Opinião
Dor e Glória, uma utopia vital

Luiz Otavio Cavalcanti
Ex-secretário da Fazenda e ex-secretário de Planejamento de Pernambuco

Publicado em: 12/09/2019 03:00 Atualizado em: 12/09/2019 10:29

Pedro Almodovar, em Dor e Glória, não assina um filme. Escreve uma utopia. Responde à violência política com três acordes: perenidade da obra (diante da finitude do autor); coexistência visceral entre dor e poder; e o que resta da grandeza da vida são as pequenas coisas.

O cineasta mostra como o autor vai. E a obra fica. O homem é finito. Mas a emoção do que escreveu, permanece infinda. Como as estrelas.

Depois, o filme demonstra como a glória fenece no tédio. Após ter alcançado o cume da cordilheira, o vencedor encontra-se consigo mesmo. E encara seus limites. Suas fronteiras estão dentro de si próprio.

Por fim, Almodovar ressalta o mobiliário mental que ocupa a memória afetiva. Na delicadeza do chocolate que o menino comeu com a mãe. Na surpresa de ver o corpo de um homem nu. Nos cheiros com que a infância impregna sua lembrança. O que remanesce são detalhes, finos, cristais que não se partem. Antes, continuam na prateleira da sensibilidade. Ante nossos olhos adormecidos.

Quando a realidade sonega saídas, temos a arte. Quando a manhã nega o sol, temos a tarde. E a utopia se transforma em vida.

Liguei o filme a um artigo sobre Roberto Campos, que eu acabara de ler. O ex-ministro atribuía o fracasso do desenvolvimento brasileiro a três fatores.

Primeiro fator, deformações culturais dos ismos: nacionalismo, populismo, protecionismo. Segundo fator: erros comportamentais: na reserva de mercado para informática, nos planos heterodoxos de combate à inflação, na fartura social sem fundo fiscal da Constituição de 88. Terceiro fator, incapacidade de concluir reformas. Ficamos sempre com o meio sucesso. Vitórias parciais.

O incrível é que, quarenta anos depois das palavras de Campos, seu neto, Roberto Campos Neto, repete o verbo do avô. Como se a vida entregasse a certidão do discurso. Ou o discurso fosse recuperado, ontem, para ser, finalmente, concretizado amanhã. Será?

A social democracia brasileira perdeu-se no escaninho da corrupção. Perdeu seu ninho de amor. Deu chance a um liberalismo que não tem inteira consciência do que faz. Ou por outra: tem. Mas finge não ter. E usa uma máscara. Furta aos gregos a arte. E adota o disfarce. De supostos rompantes. Que chocam o amanhecer. E deixam tontos até os adversários. Agora, envoltos com hackers.

A vida é uma utopia. Seja no firmamento do cineasta genial. Seja na perseverante terra tropical.

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