Dom Helder está em "colégio de freiras"

Raimundo Carrero
Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 02/09/2019 03:00 Atualizado em: 02/09/2019 07:56

 “Quer dizer, eu só escutei o barulho porque estava com Isabel se defendendo do mundo com um verso do Dom da Paz, dom Hélder, quando se livra um pássaro do alçapão traiçoeiro onde caiu, ele sai espantado assustadiço mas incólume e feliz...”

Aí está o verso de Dom Hélder Câmara, em voz alta, que transcrevo na fala da personagem Isabel, atendendo a súplica de Vânia, a protagonista da minha novela “Colégio de Freiras”, que gritara Isabel, ô Isabel, traz aí um verso para salvar o mundo. Lembrando que ambas estavam presas na Colônia Penal porque perderam a virgindade.

Lembrei-me desta homenagem que prestei ao Dom agora que é lembrada sua morte, âs vésperas da canonização pelo Vaticano. Estava escrevendo a novela, num domingo pela manhã, quando ouvi a voz de minha personagem pedindo em verso para salvar o mundo. Isabel é poeta. Começava ali um incêndio na Colônia Penal. Coincidentemente, o verso falava, com clareza do liberdade “quando se livra um pássaro do alçapão traiçoeiro onde caiu...”. Anotei o poema imediatamente e levei seu brilho para minha novela. Homenagem ao Santo dos Pobres, no dizer de João Paulo II, hoje santo também.

Parece que faltam as aspas no texto do livro. Não é assim. O texto sem aspas resulta do diálogo interno criado por Flaubert no discurso indireto livre em que a voz do narrador se confunde com a voz do personage”, criando uma nova voz. É isso.

Assunto, aliás, debatido na Oficina de Criação Literária, onde praticamos, justamente, as técnicas que levam à construção do texto literário, embora com alguma resistência. Mas o certo é que o texto literário não é plano, exige habilidade e muita perícia, de forma a seduzir o leitor.

Às vezes até pode e deve transgredir a gramática, que é sempre uma camisa de força. Liberando o autor para comunhão com o leitor. Literatura não é relatório nem carta. Pede invenção e reinvenção sempre. Sempre.

Justo pela liberdade com a gramática ´r que Lima Barreto foi muito perseguido pelos puristas. Os modernistas, com Mário de Andrade, tiveram um duro embate com tradição. Briga de foite para todolado. É justo, é justíssimo, é correto.

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