Democracia, censura, balada literária...

Raimundo Carrero
Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras
raimundocarrero@gmail.com

Publicado em: 16/09/2019 03:00 Atualizado em: 16/09/2019 09:13

Se a democracia corre risco, conforme reflexão dos especialistas, não é de todo estranho que a censura, e a tortura praticada por seguranças num pobre mortal de rua, uma criança desamparada, reapareçam com agressividade, o que é uma redundância porque, pelo óbvio, censura e tortura são agressivas sempre. A censura, por exemplo, se derramou eloquente pelo país, com ações abjetas no Rio e em São Paulo, através de prefeito e governador. Desculpe não citar nomes. Estou muito cansado.

Nomes afligem minha alma e não quero afligi-la ainda mais. Estou exausto nestes dias de desmando. Censura passa a ser, nestes casos, sinônimo de tortura pela dor que provoca. Os sonhos começam a desaparecer e na idade em que me encontro secam minha carne, meu sangue. Quero estar sempre convencido de que posso mudar o mundo com meus romances, minhas novelas, enfim, minha ficção, ainda que sejam ficção mesmo.

Costumo dizer que o artista cria porque não está satisfeito com o mundo em que vive. Por isso precisa de outro. Ou de outros. Uma novela consome anos, anos, anos. E aí, sobretudo no meu caso, os seres humanos são outros, mesmo quando estropiados, abatidos, vitimados, infelizes. Estão ali e são fiéis ao autor. Convivem, debatem, enfrentam-se. Com incrível lealdade, porém. Com fidelidade e paixão. Mas estão todos protegidos. Enquanto foge do mundo, os artistas entram  no mundo

Não precisam enfrentar a ignomínia humana em carne viva, em brasa.. Apesar de tudo, porém,O humano é o sangue e a veia de toda criação. O  humano com todo o cortejo de infelicidades e danações. Foge do mundo mas, contraditoriamente, quer que tudo esteja  ali para conquistar, enfrentar, lutar. Foge do mundo mas quer estar no seu cheiro, no seu suor, no seu perfume. É, todavia, no meio desta contradição e desta perplexidade que o artista se joga, feito quem enfrenta uma fogueira. O leitor deve perguntar, o que este maluco quer, enfim...Confuso é verdade, mas com clareza para aplaudir a Balada Literária de Marcelino Freire, percorrendo o país para homenagear Paulo Freire, o educador.

Sei que é confuso, mas é assim que procuro respostas. Se há respostas. Atiro-me nesta sofreguidão e continuo lutando. Sempre, sempre e sempre. Acredito naquilo que Sartre proclamou – “enquanto uma criança morre de fome, não há razão para romances.” Mas também acredito firmemente, enquanto houver fome, maior a razão para arte e para a cultura. Nos meus livros todos sofrem, mas não lhes falta dignidade. Mesmo aos poderosos.

Por isso acredito sempre na resistência artística. Sobretudo quando Marcelino Freire – o artista guerreiro -percorre o país com a Balada Literária, proclamando a foçar educacional de Paulo Freire. Une assim a força da literatura com a educação. Só a democracia permite isso...

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.