Editorial Brexit: novela mexicana

Publicado em: 07/09/2019 03:00 Atualizado em: 07/09/2019 06:15

“O voto não tem preço. Tem consequência.” Repetida em época eleitoral, a frase ganha robustez na novela do Brexit. O rocambolesco enredo começou em 2016, quando os britânicos foram às urnas votar proposta irresponsável de David Cameron. O então primeiro-ministro convocou plebiscito sobre saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Nem ele nem os eleitores acreditavam na vitória do sim. Decepcionaram-se. Desinformação e fake news contribuíram para a derrota do bom senso.

Tanto os súditos da rainha quanto os parceiros do bloco europeu receberam o resultado com surpresa. As consequências, então, entraram em campo. Faltavam regras para a retirada de um membro da UE. Faltava, também, consciência do significado da decisão. Entre os desafios, sobressai a discussão da fronteira das duas Irlandas. O imbróglio cobrou a cabeça de Cameron e da sucessora, Thereza May. E, pelo andar da carruagem, a terceira rolará.

O conservador Boris Johnson assumiu as rédeas do processo em 23 de julho. Em menos de dois meses, sofreu sucessivas derrotas e enfrenta críticas azedas de eleitores, correligionários e opositores. Ele defende o Brexit duro — divórcio a qualquer custo. Se depender da vontade do mandatário truculento e cheio de vontades, a debandada se concretizará na data-limite mesmo sem acordo. Em 31 de outubro, a ilha abandonará o continente.

Mas ele negligenciou a costura de acordos. Com inédita virulência e jogadas marcadas pela esperteza, tomou medidas que mereceram a rejeição dos pares. A manobra mais recente, evitar a participação do Legislativo nas negociações do Brexit, fracassou. Não deu certo a tentativa de suspender os trabalhos parlamentares até 14 de outubro — 15 dias antes do salto rumo ao desconhecido.

Como prova da solidez da democracia britânica, os deputados aprovaram lei que proíbe a saída do Reino Unido sem acordo prévio. Foi a segunda derrota consecutiva do premiê. Antes, o deputado que garantia a maioria à coalização que alçou Boris Johnson à frente do governo trocou de lado. Ostensivamente, enquanto Johnson discursava, ele cruzou o salão e se sentou ao lado dos opositores.

Também o irmão, Jô Johnson, roeu a corda. Anunciou a renúncia ao cargo de ministro da Educação e à vaga de deputado pelo partido Conservador. A razão: sentia-se “dividido entre a lealdade à família e o interesse nacional”. Sem maioria, Johnson se mantém à frente do governo até que seja aprovado um voto de desconfiança contra ele e marcadas eleições gerais.

O clima de incerteza é crescente diante da incapacidade de o primeiro-ministro apontar rumo para o futuro próximo. A libra caiu. Os papéis do governo negociados no mercado financeiro também perderam valor. Investidores temem aplicar dinheiro em cenário pouco claro. Até quando? Ninguém ousa apostar as fichas numa resposta. A paralisia permanece.

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