Diario de Pernambuco
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Opinião
A professora e o homem do miserê

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 17/09/2019 03:00 Atualizado em:

Uma amiga muito querida, professora do primeiro grau escolar   (eu ainda penso em Curso Primário), pessoa estudiosa, sempre em dia com reciclagens, palestras sobre educação, cursos de aperfeiçoamento, assídua em conferências sobre literatura, sobre pedagogia, dedicadíssima ao ensino, aos alunos, me telefona, revoltada, horrorizada. “Você viu a declaração do homem?” Como todo brasileiro vivo sobre brasas diante de declarações diversas, curiosa e inquieta: “Que homem, que declaração?” Respondeu: “Um tal procurador que se queixa do salário que lhe pagam, uma  miséria, 24 mil e um pedaço, que não dá pra ele viver pois paga 4 mil de condomínio”. Me disse o nome e a função pública do tal homem, que aliás já esqueci, não merece nossos pensamentos mas nosso desprezo, e nojo, como se tem nojo  da barata que a personagem de Clarice iria comer, e que me perdoem as baratas, e pela inconsciência, pela ignorância, enfim. Mas ficaram as cifras, a indignação sempre suscitada quando pensamos em nossas injustiças sociais, que o mundo inteiro conhece e as estatísticas não cessam de divulgar, para nossa vergonha. E a professora me lembrou: “Eu ganho dois mil, quatrocentos e cinquenta e cinco reais e 35 centavos por quarenta horas de trabalho em aula. Sem contar as preparações em casa, as correções de exercícios. Isso porque tivemos um aumento de 4,17% em janeiro passado” .Depois falou em voz mais baixa, como envergonhada: “Eu não posso nem mesmo comprar um livro.” Eu já sabia, vez em quando faço palestras em escolas do estado, e em encontros sobre ensino de literatura, enquanto meio de encontro com a beleza, em nosso duro dia a dia, como alargamento de visão do mundo. Sei o que significa o dom de si e de vida que disponibiliza diariamente cada professor em Cruzeiro do Norte, naquele pequena escola de sítio perto de Floresta, 30 meninos de várias idades, numa salinha apertada e sem janelas. Ou em Gameleira, ou naquele povoado pobre, perto de Garanhuns, eu com um gosto amargo na boca. E tudo recompensado com a alegria  com que ensinam essas mestras, vinda da fé na profissão, tão pouco reconhecida. Uma vez tive a surpresa e a felicidade de ter, na Ufpe,  uma aluna japonesa, que se curvava ao conversar comigo, e me falou da alta consideração e dos salários compensadores dos professores na terra dela. E me disse que o professor era a única personalidade diante da qual o Imperador se curva no Japão. E eu pensei: Meu Deus, quando é que nossos mandatários vão se curvar diante de minha amiga, a professora que ganha o mesmo salário do tal procurador, só que com um zero a menos? 

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