A polêmica Ruy Fausto vs Samuel Pessôa (II)

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 02/09/2019 03:00 Atualizado em: 02/09/2019 07:56

Samuel Pessôa avança a hipótese de que a esquerda brasileira armou uma armadilha contra si própria. A disputa entre o PSDB e o PT teria impedido entendimentos entre os dois partidos de tendência socialdemocrata. Ele refuta a crítica do PT e de Ruy Fausto aos governos de FHC. Neles enxerga muitas convergências com o primeiro governo de Lula. Na responsabilidade fiscal, nas políticas de aumento real do salário mínimo, nas políticas sociais de redistribuição. Mostra números que aproximariam os resultados obtidos pelos dois governos na redução da pobreza e da desigualdade. Salienta a continuidade de algumas políticas. E se insurge contra a imagem aceita por muitos de que o governo FHC teria sido de direita. Invoca o critério de Bobbio de que esquerda e direita se distinguiriam pela maior defesa da inclusão social feita pela primeira. E argumenta que, se o governo FHC promoveu redução de desigualdades, teria sido uma experiência socialdemocrata. Portanto, de esquerda.

A economia, analisada tanto pelos ortodoxos (os que formulam hipóteses para testá-las por modelos quantitativos econométricos) quanto pelos heterodoxos (os que preferem narrativas e objetivos mais gerais a serem perseguidos), pode iluminar os caminhos a seguir. A economia faz debate sobre os meios. Mas, caberá sempre à arte da política a negociação e a deliberação sobre os rumos. O debate sobre os objetivos prioritários, sobre as escolhas. E, no diálogo (para os democráticos) ou na imposição (para os autocráticos), os valores cumprirão papel sempre relevante. A cultura política, os valores e os símbolos são relevantes para a conformação do presente e do futuro.

Realmente os governos FHC e Lula 1 têm algumas similaridades salientadas por Pessôa. Ficam de fora o Governo Lula II e o de Dilma porque deram uma guinada na política econômica, optando por um intervencionismo do velho nacional- desenvolvimentismo que resultou no desastre da recessão, nos 14 milhões de desempregados, e no derretimento das políticas de proteção social. Mas penso que os governos FHC e Lula 1 são diferentes na cultura política sinalizada. A inclusão dos mais pobres foi colocada como objetivo central do governo Lula. Assim como foi dado protagonismo aos setores populares e suas organizações. Inclusive com participação direta nas conferências setoriais de racismo, juventude, LGBTI, ambiental, mulheres, cidades, etc.

O desfecho trágico que levou à ascensão da extrema-direita tem a ver com a desastrada guinada da política econômica que ampliou a intervenção estatal em setores estratégicos como o elétrico e o financeiro, escolheu campeões nacionais para os juros privilegiados do BNDES (soube-se depois, com critérios não republicanos) e manipulou as contas públicas deterioradas por uma política fiscal frouxa. Tem a ver, ademais, com duas das patologias apontadas por Ruy Fausto: i) insuficiência do compromisso democrático decorrente da complacência com o totalitarismo igualitário; e (ii) prática de um populismo que aprofundou a corrupção endêmica do velho estado patrimonialista e da política brasileira. Acrescento que tem a ver com a renúncia a promover reformas estruturais do estado, da política e da economia.

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