Diario de Pernambuco
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Opinião
A força da mídia alemã

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford.
twitter: @RandsMauricio

Publicado em: 16/09/2019 03:00 Atualizado em: 16/09/2019 09:11

Em comum, os diversos atores alemães que produzem informação são quase unânimes em reafirmar o compromisso de não interferência do estado e da política na geração de conteúdo. As principais media outlets (ARD e ZDF) que recebem os recursos da taxa de 17,50 euros por domicílio são geridos por conselhos independentes. Grandes redes como a ARD e a ZFD, que representam associações de várias emissoras de TV e rádios, abarcam mais de 55% da audiência. Praticam uma produção de conteúdo autoproclamada ‘jornalismo de qualidade’, que se pretende imune às injunções da paixão política. O que também é proclamado pelas emissoras e jornais do setor privado. Visitando uma delas, a N-TV do grupo RTL, indaguei ao jornalista Lothar Keller e ao diretor do departamento de ‘fact-cheking’, Andreas Greuel, sobre como eles conseguem competir com as poderosas ARD e ZDF mesmo sem receber subsídios públicos. A resposta foi a de que desenvolveram uma estrutura para produzir um jornalismo o mais objetivo possível. Assim, contam com uma unidade exclusiva para ‘fact-cheking’, o chamado ‘time de verificação’. Que, no caso da N-TV, agrupa 75 pessoas dedicadas ao assunto. E usa ferramentas de detecção de falsidades como busca reversa de imagens, verificação da origem da postagem, geolocalização, checagem de mediadata, e vídeo/photo forensic. Em um ciclo que abrange investigação, análise e recomendação.

Por essa busca de um jornalismo objetivo, a mídia alemã ainda goza de forte credibilidade. O que acaba de ser reconhecido por pesquisa mundial feita pela Edelman GmBH, que situou a mídia tradicional como a mais confiada pelo público. Desbancando as mídias sociais. Mesmo que alguns sinais de perda de prestígio sejam reconhecidos pelos próprios atores. Como apontam os que chegam a chamar a grande mídia de ‘imprensa mentirosa’ (Lügner press’). Ou como os profissionais da academia e da grande mídia que, às vezes, acusam veículos como o poderoso jornal Bild, com seu 1,5 milhão de cópias diárias, de praticarem o chamado ‘jornalismo amarelo’. Vale dizer, de sensacionalismo e baixa qualidade. Críticas que por eles são respondidas com o argumento de que jornalismo de qualidade é aquele que é entendido pelo povo, de todos os níveis e backgrounds. Não aquele que satisfaz apenas uma elite intelectual e os que o produzem. Mas, de um modo geral, a ainda alta credibilidade da mídia alemã pode ser atribuída a um certo consenso sobre a necessidade de produção de bom conteúdo. Ouvi isso de vários atores. A começar pelo prestigiadíssimo editor geral da respeitada revista semanal Der Spiegel, Steffen Klusmann. Que, no encerramento do Congresso Alemão de Comunicação, na última 6ª feira, fez um corajoso discurso de autocrítica para mais de mil jornalistas presentes, inclusive a nossa missão internacional convidada pelo Ministério das Relações Exteriores. Também pude testemunhar isso na conversa com a jornalista Kristin Becker, da ARD. Perguntei-a sobre se a facilidade da difusão das fake news não podia ser atribuída à propensão do público pelo emocional, inusitado e pelo que confirma seus preconceitos. Provoquei-a sobre se a mídia de qualidade não deveria combinar um pouco mais de emoção com a objetividade. Primeiro ela respondeu que o remédio só pode ser o desenvolvimento da capacidade de produzir reportagens verdadeiras, objetivas e profundas. Mas, depois, pediu a palavra para acrescentar que uma boa matéria também deve saber dialogar com as emoções do leitor.

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