Precisamos conversar sobre Messias

Ricardo Leitão
Jornalista

Publicado em: 30/08/2019 03:00 Atualizado em: 30/08/2019 09:17

Desculpe a pressa, prezado companheiro, mas a situação se agravou. Precisamos conversar, o quanto antes, sobre Messias. Ele conheceu o plano; a que o plano se destina; foi depois informado de onde vinham os recursos para financiar o plano e que os financiadores têm o direito de receber o dinheiro de volta, com juros.

O que cabia a Messias? Cuidar do varejo, com o seu grupo, enquanto o nosso pessoal administrava o atacado, com a chave do cofre na mão. No início, ele até foi bem. Imaginou um país onde todos viviam felizes e sua rotina se resumia a acordar cedo; dar um tiro no pé; negar pela tarde o que afirmava pela manhã (e vice-versa) e participar de alguma solenidade burocrática. Sem sair dos trilhos que traçamos, sem atrapalhar nossos negócios.

Mas a coisa mudou, e mudou para pior prezado companheiro. Messias passou a sofrer do que estão chamando de “surtos presidenciais”. Ele não quer ser mais um mandatário delirante em um país imaginário e sim um líder de fato em um país real. Ou seja: Messias rompeu com todos os compromissos e pode implodir as nossas lucrativas alianças internas, externas.

Quando as coisas ainda estavam nos trilhos tudo deu certo. A reforma da aposentadoria dos faroleiros foi um sucesso. Não só os valores das aposentadorias foram reajustados, como os faróis passaram a dispor de elevadores panorâmicos e helipontos para estimular a visitação dos turistas.

O mesmo aconteceu com a reforma dos impostos. Adotamos a fórmula mais simples e rápida: diminuímos a taxação de quem ganha mais e aumentamos o imposto de quem ganha menos. Como os que ganham menos são maioria, vamos recolher mais impostos, sem contrariar os que ganham mais, os nossos leais companheiros. Um caso típico de justiça social.

Messias não interveio em nenhuma das duas reformas, o que foi efusivamente saudado nos fóruns civis e militares. Porém, agora, um “surto presidencial” ameaça colocar tudo a perder, com repercussões internacionais. Conhece o Programa Nacional de Estocagem de Ventos, o Provent? Pois bem. Uma das supercápsulas de estocagem rompeu, gerando um tufão que derrubou milhares de árvores e movimentou nuvens que encobriram os céus em centenas de cidades. Sem poder distinguir se era, ou não, o amanhecer, os galos se desorientaram.

Messias poderia ter pedido desculpas, informar que ressarciria os danos e ordenado a revisão imediata da supercápsula. Mas não: partiu para cima, em pleno “surto presidencial”. Disse estar sendo vítima de uma conspiração de cunho ideológico, cujo propósito era roubar do nosso país a complexa tecnologia de estocar vento.

O primeiro resultado é que ele passou a ser tratado como um enorme risco ao meio ambiente, incapaz sequer de administrar suaves brisas. O segundo efeito é que os nossos negócios estão desabando em todo mundo. Ninguém quer comprar nossos redemoinhos de última geração, para finalidades pacíficas (afastar a poluição aérea) ou bélicas (empurrar a poluição sobre os céus dos inimigos). Tudo por conta da birra infantil de Messias em ser presidente de fato.

Vamos iniciar as providências. O Grupo Tático de Monitoramento (GTM) e o Grupo Tático de Intervenção (GTI) já foram mobilizados. O propósito inicial é impedir outros “surtos presidenciais”, tarefa que não é fácil: eles ocorrem sem aviso, em qualquer hora e lugar.  

Talvez depois da nossa conversa, e de ouvir as ponderações do Grupão, tenhamos de levar o assunto, com toda firmeza, a Messias. Ele sabe o que representa e por que foi o escolhido. É bom levar as coisas a sério. Por enquanto, não temos plano B. Mas, diante do caos que está se instalando, vai faltar alfabeto para tantas novas opções.

Com as minhas saudações, extensivas à sua nobre família.

Obs: Esta é uma cópia de um texto de ficção. O original foi levado pelo vento, depois da explosão da supercápsula.

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