Perspectivas de crescimento da economia e o efeito moleque

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicado em: 17/08/2019 03:00 Atualizado em: 17/08/2019 15:12

As expectativas de crescimento da economia brasileira estão em queda desde meados do primeiro semestre. Uma questão relevante para se ter uma maior segurança nas previsões é entender por que tal queda está ocorrendo. A priori podemos dizer que há algumas motivações possíveis: (i) ambiente internacional; (ii) política econômica seguida pelo governo; e (iii) nível de confiança política. Cada um dos três determinantes certamente tem algum papel. A iminência de uma crise internacional, por causa das disputas entre Estados Unidos e China e a crise na Argentina certamente têm um papel relevante. Mas o fato de o acirramento ser mais recente do que a queda de expectativas indica que os outros dois fatores têm também algum papel importante. Estima-se que a situação internacional deve explicar no máximo 0,3% dessa queda de projeções nesse ano e 0,5% em 2020. Como a queda foi de mais de 1,2%, estamos sofrendo mais do que precisamos. Fatores internos têm trazido frustrações importantes.

A demora a se ter segurança na aprovação de uma reforma da previdência que pudesse ter um impacto fiscal importante certamente teve algum papel. Mas sua aprovação na Câmara dos deputados e perspectivas de aprovação no senado em breve deveriam ter causado uma recuperação forte nas expectativas de crescimento, tanto em 2019 como em 2020. Mas isso não se verificou de forma sensível. Isso significa que os riscos fiscais futuros, reduzidos pela reforma, não foram sensivelmente reduzidos ou não tinham papel tão importante na redução das expectativas de crescimento do PIB. A retirada dos estados e municípios da reforma certamente reduziu seu impacto, pois esses continuam com perspectiva de colapso fiscal. Além disso, o acirramento recente das perspectivas de crise internacional certamente comprometeu essa recuperação. Mas as estimativas de efeito máximo delas acima mencionadas já consideram esse recrudescimento recente, inclusive na situação da Argentina. Ou seja, ainda há um percentual elevado da queda nas expectativas a se explicar, entre retirada dos estados e municípios da reforma e políticas em geral.

As demais reformas econômicas importantes estão indo bem. A tributária está em discussão em patamares nunca vistos nos últimos 20 anos, nos quais ela é discutida. A MP da Liberdade Econômica foi aprovada na câmara e terá um impacto positivo relevante na atividade econômica, pois ajuda um pouco a tirar o “estado do cangote dos empresários.” A Lei do Abuso de poder, recentemente aprovada, pode também reduzir um pouco o risco empresarial, pois a possibilidade de abuso de autoridades deixa os empresários acanhados diante de fiscais de órgãos públicos. Ou seja, as reformas têm andado em bom passo, confirmando expectativas que existiam no final do ano passado. O que mudou então, além da situação internacional?

O lado perverso do funcionamento mental do presidente é que tem se mostrado que não é controlável nem irrelevante, como otimismo de outrora considerou. A economia brasileira tem sofrido com incertezas geradas pela possibilidade de ações irresponsáveis do presidente. Isso é o que tenho chamado de efeito moleque. Ninguém pode ter certeza que ele não poderá criar problemas onde não existem, apenas por molecagens. Não hesitou em comprometer um acordo entre União Europeia e Mercosul ao cortar cabelo em momento de reunião importante ou de fazer gozação com Noruega e Alemanha ao cancelarem contribuições ao Fundo da Amazônia. Os exemplos de molecagem são muitos e eles desunem o país e criam atritos desnecessários. Se esse for o determinante da queda de 0,4% do crescimento do PIB em 2019, o que é uma estimativa conservadora, a molecagem já deve ter custado mais de R$ 27,0 bilhões ao povo brasileiro. Ou seja, em um ano ela já destruiu cerca de 10% do valor da Petrobras. Imagine-se o estrago em quatro anos.

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