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Opinião
Os hackers de Araraquara

Liana Cirne Lins
Professora associada da Faculdade de Direito da UFPE, doutora em direito público, mestra em instituições jurídico-políticas e advogada

Publicado em: 02/08/2019 03:00 Atualizado em: 05/08/2019 10:22

A política no Brasil virou profissão de fé. O debate foi substituído pela pós-verdade. Mamadeiras fálicas venceram a eleição presidencial. Não há mais limite ou distinção entre crível e incrível. Tudo é possível. Presidente que chama todos os estados do Nordeste de Paraíba. Universidade que suspende atividades porque não pode pagar a conta de luz. Conta de twitter presidencial que publica vídeo pornográfico e pergunta o que é “golden shower”. Brasil se aliando a Rússia, Paquistão e Arábia Saudita para vetar a expressão “gênero” das resoluções da ONU. Tudo é possível. O Brasil virou uma tragicomédia em tom farsesco. E é nesse tom farsesco que assistimos, atônitos, à prisão dos hackers de Araraquara. Vejamos quem compõe o grupo de meliantes presos: um estelionatário filiado ao DEM, um ex-DJ e sua companheira e um ex-motorista de Uber que fez campanha para Bolsonaro nas redes sociais. Nenhum gênio da informática capaz de quebrar códigos de segurança de alta complexidade. Nenhum mestre dos algoritmos da internet. Apenas um grupo de estelionatários que aplicavam golpes em cartões de crédito, com clara e assumida simpatia ao pensamento político de direita. Como eles conseguiram invadir o sistema criptografado do ultrasseguro aplicativo russo Telegram? A Polícia Federal não respondeu. Aliás, nem a PF, nem o Ministério Público estabeleceram relação entre o grupo preso e a “invasão hacker” às autoridades da cúpula governamental, incluindo o próprio presidente. Abre parênteses. A líder governista na Câmara, Joice Hasselmann, chegou a printar uma “ligação hacker” que teria partido do seu próprio telefone para ela mesma. O estranho é que na ligação não aparecia seu número, mas seu nome. Isso mesmo. A deputada salvou seu próprio nome na agenda. Confesso que até então nunca tinha visto alguém salvar seu próprio nome na agenda do celular. Se não estivéssemos vivendo em tempos em que tudo é possível, seria mais fácil acreditar que a deputada salvou outro número, de uma pessoa conhecida, com seu nome e pediu para que ela lhe telefonasse, forjando o ataque. Fecha parênteses. O Telegram nega que tenha havido qualquer violação ao seu sistema de segurança. Então como se chegou à improvável relação entre o grupo de desqualificados estelionatários de Araraquara e a suposta “invasão hacker” da cúpula do governo? A improvável relação foi estabelecida por ninguém menos que Sergio Moro, que de seu twitter dita a conveniente narrativa. Moro foi acuado pela série jornalística Vaza-Jato, do site The Intercept Brasil, em que foi exposta extensa troca de mensagens com a acusação ao tempo em que era juiz dos processos da operação Lava-Jato, demonstrando sua atuação ilícita e parcial para condenar vários réus, entre eles o ex-presidente Lula. Como resultado, foi descredibilizado internacionalmente. Rapidamente feito de herói em bandido, Moro é o principal interessado em precipitar um fim nos escândalos que protagoniza. Cobrado a renunciar o posto de ministro da Justiça e comandante da Polícia Federal (coisa que naturalmente aconteceria em qualquer país sério, mas não estamos em um país sério, não é?), Moro garante que a PF tem autonomia para investigar. E não renuncia. Aliás, está mais ativo do que nunca. Publicou a Portaria n. 666, de 25 de julho de 2019, que prevê hipótese de deportação sumária a estrangeiros que coloquem em risco a segurança nacional. Uma portaria que chama atenção por, além do número diabólico, ter sido feita sob medida para conter seu principal adversário, o jornalista ganhador de um Pulitzer e de um Oscar, Glenn Greenwald. Mandou destruir provas apreendidas com os supostos hackers, incorrendo em crime contra administração da justiça. Telefonou para ministros do STF, avisando que estariam implicados nos supostos vazamentos, mais uma vez comprovando que não respeita sigilo de investigações ou muito menos a alegada autonomia da PF. Tudo justificado pela prisão dos hackers de Araraquara, que podem até ser hackers de araque, mas são incrivelmente convenientes nesse país onde tudo é possível.

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