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Opinião
O exemplo alemão: cooperação e solidez institucional

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford
twitter: @RandsMauricio

Publicado em: 12/08/2019 03:00 Atualizado em: 12/08/2019 09:43

As divisões catalisadas pela ascensão do populismo de direita em países como EUA, Inglaterra, Polônia, Hungria, Itália e Brasil estão produzindo reações. Na opinião pública, na academia e na mídia. Mas também nos sistemas políticos de alguns países de democracia madura. Vale prestar atenção no que está acontecendo na Alemanha. Todos lembramos do gesto simbólico de Obama. Que, no finalzinho do 2º mandato, viajou a Berlim para abraçar Angela Merkel. Como a lhe passar o bastão de guardiã dos valores da democracia ocidental. Ela que tem resistido ao ascenso dos nacionalistas xenófobos do Partido Alternativa para a Alemanha. Ela que corajosamente foi capaz de acolher mais de 1 milhão de migrantes desesperados pela crise humanitária da Síria e outros lugares trágicos. Que soube enfrentar as críticas, sabendo que seu gesto de abertura e solidariedade com os imigrantes tinha um custo político. Cuja conta veio logo em seguida, nas eleições gerais de 2017, na qual os dois principais partidos sofreram fortes perdas. Resultados que levaram o Partido Alternativa para a Alemanha (AfD) a ingressar pela primeira vez no Bundestag, com 92 deputados e 12,6% dos votos, a partir de uma plataforma xenófoba extremista. Ocorre que o sólido arcabouço institucional alemão tem conseguido dar algumas respostas à intransigência da extrema-direita. Diante da crise do projeto europeu, os alemães têm procurado fortalecê-lo com o exemplo do equilíbrio fiscal, do crescimento econômico e das políticas de inclusão social, inclusive para imigrantes. O orçamento federal tem se mantido consistentemente equilibrado, com zero de déficit fiscal desde 2014. Tudo isso bem conduzido a partir de um sistema eleitoral que tem servido de exemplo. O voto distrital misto lá praticado tem duas grandes virtudes. Primeiro, a proximidade entre eleitos e eleitores conferida pelo primeiro voto de cada eleitor que escolhe um deputado no seu distrito. Depois, a clareza programática conferida pelo segundo voto na lista partidária nacional. E supervisionado por um Judiciário independente, sério e sóbrio.

O governo Merkel tem focado na coesão social para superar as divisões que são capturadas e aproveitadas pelos extremistas. Logo após os preocupantes resultados de 2017, os dois principais partidos, a Democracia Cristã (CDU-CSU) e o Partido Social Democrata (SPD), fizeram uma grande coligação. O slogan para a plataforma de governo até 2021 disse tudo: “Um novo impulso para a Europa. Um novo dinamismo para a Alemanha. Uma nova coesão para o nosso país”. Rivais históricos, a centro-direita e a centro-esquerda resolveram unir-se para enfrentar a crise e fortalecer um sistema político que tem dado exemplo de resiliência e capacidade de resposta às mais diversas conjunturas. A maturidade democrática das instituições alemães tem conseguido feitos notáveis: a superação do regime de Hitler a partir da Lei Fundamental de 1949; a unificação das duas Alemanhas que permaneceram divididas durante a Guerra Fria; a criação de um imposto adicional de 5% como contribuição solidária de todos os alemães para acelerar o desenvolvimento econômico da parte oriental; a liderança para o generoso projeto europeu, inclusive com a transferência líquida de fundos para países que ingressaram na União Europeia a partir de níveis inferiores de desenvolvimento, como foi o caso de Portugal, Espanha e Grécia.

A lição alemã pode nos inspirar aqui numa América Latina que não consegue superar o subdesenvolvimento econômico e institucional. Que não encontra solução num sistema político cada vez mais fraturado e incapaz de forjar consensos para superar o atraso, a desigualdade e a pobreza.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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