Neocolonialismo ou "bananagem"

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/08/2019 03:00 Atualizado em: 24/08/2019 08:01

A política externa brasileira está ganhando forma clara após esse início de governo. Sair de alianças com países em desenvolvimento e priorizar relações mais estreitas com países desenvolvidos que sejam dominados pela extrema direita foi a prioridade estabelecida. Particularmente, os Estados Unidos e Israel deveriam ser o foco das alianças nesse novo contexto. Ainda nessa concepção, a América Latina e a África deixaram de ser prioridades nas relações exteriores. Mesmo Japão e demais países asiáticos deixaram de ser prioridade. Nesses casos, talvez, pela psicologia de pessoas autoritárias: temer e agredir o desconhecido. O governo brasileiro tem entronchado a cara até mesmo para a China, nova potência ascendente no mundo. Embora a Europa tenha passado a ser vista inicialmente como centro interessante de aproximação, as ideias muito “avançadas”, como defesa da democracia, do meio ambiente e da maior igualdade social, além da pluralidade democrática, tornaram-se um obstáculo à aproximação do novo governo brasileiro.

Como Israel, embora desenvolvido, é muito pequeno para o Brasil, as atenções voltaram-se para os Estados Unidos. O novo governo resolveu se tornar vassalo dos E.U.A., dentro de uma lógica neocolonial. Além disso, resolveu agredir as democracias europeias, como Alemanha, Noruega e França. Essa postura está pondo em risco alguns dos possíveis ganhos pela diplomacia brasileira, construídos ao longo de anos de negociações, como o acesso à OCDE e o acordo comercial com a União Europeia. A continuar com essa postura e política ambiental inadequada, não teremos nem uma coisa nem outra. Teremos que esperar até o fim da atual gestão no Palácio do Planalto para celebrarmos essas conquistas. Até as lideranças do nosso agronegócio, que teoricamente seriam conservadores em política ambiental, já estão em polvorosa pelas consequências perversas que essa política já está tendo para as exportações brasileiras de bens primários.

Nessa estratégia, talvez uma possibilidade tenha sido esquecida. Há grandes chances de Donald Trump perder as próximas eleições. Há nos EUA hoje uma vergonha grande de seu presidente, que tem relegado os EUA a uma posição de isolamento internacional em quase todos os temas relevantes. Um(a) democrata à frente do executivo americano deverá mudar as relações daquele país com o resto do mundo e reagir à postura conservadora brasileira. Um governo democrata certamente vai esfriar as relações entre os dois países, enquanto a atual gestão brasileira ainda estiver na liderança local. Isso nos deixará em uma posição de muito isolamento internacional, o que dificultará o comércio, as cooperações em pesquisas e acesso a inovações. O Brasil poderá ser forçado a reduzir ainda mais seu ritmo de crescimento.

Nesse reposicionamento do nosso país na política internacional, mas diante de outros conflitos internos, é interessante assistir ao nosso mandatário dizer que não é um banana. Uma pessoa é tachada de banana quando é mole ou fraca. A psicologia nos ensina que pessoas moles ou de personalidade fraca tendem a seguir líderes de forma mais cega do que os de personalidade forte. Diante disso, pergunta-se se não seria a fraqueza que levaria um presidente querer seguir um outro sem ter posição própria que defenda os interesses nacionais. Talvez o conjunto interseção dos neocolonizados e bananas não seja pequeno. Temos nos comportado como neocolonizados diante do mundo e como bananas diante dos Estados Unidos. E vice-versa. Quem sabe se conseguirmos fritar hambúgueres nos jantares da Casa Branca possamos encontrar algum benefício no Neocolonialismo, ao menos enquanto os democratas não tomarem conta de seus salões. Pois creio que eles não gostam tanto de hambúrgueres assim.

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