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Opinião
Editorial Fora do foco

Publicado em: 22/08/2019 03:00 Atualizado em: 22/08/2019 14:01

Lamentável. Talvez seja esse o adjetivo que melhor qualifica o debate sobre a militarização das escolas. O foco, que ora incide sobre a violência, deveria estar voltado para os desafios do século 21. A sociedade mudou. Mudou tão radicalmente que impõe guinada de 180 graus nas respostas apresentadas pelas instituições de ensino.

O desafio: preparar os estudantes para a realidade — robôs ocupam cada vez mais vagas no mercado de trabalho. Tarefas repetitivas, que absorviam a maior parte dos trabalhadores, agora se destinam a máquinas sofisticadas, capazes de substituir com vantagem a mão de obra humana. Não só. A tecnologia avança com tal celeridade que hoje torna obsoleta a descoberta de ontem.

Na era digital, em que a inovação é a ordem, a educação continua analógica, voltada para a revolução industrial — horários rígidos, menininhos de uniforme, sentadinhos um atrás do outro, recebendo o mesmo conteúdo do mestre que detinha o monopólio do saber. Preparavam-se, à época, operários para a linha de montagem. Quanto mais iguais, melhor.

As crianças de hoje nascem digitais. Mas a escola nega-se a fazer a leitura correta do tempo. Mantém-se no passado. Com a informação na palma da mão e as bibliotecas do planeta no kindom, ninguém precisa do blá-blá-blá do pseudo-Google para saber que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, que Michelangelo esculpiu Davi, que Bethoven compôs a Quinta Sinfonia, que o Japão fica na Ásia.

As avaliações nacionais e internacionais reprovam o ensino brasileiro em todos os níveis — do fundamental ao superior. As crianças concluem o 3º ano, série da qual deveriam sair totalmente alfabetizadas, sem domínio da leitura e da escrita. Só 10% atingem a meta. A metade permanece analfabeta. E permanecerão se não houver um esforço para qualificar os professores, profissionalizar a gestão, aprimorar o material didático, melhorar as condições de trabalho.

Deficiências não resolvidas nos primeiros anos cobrarão juros ao longo da vida. O excluído do direito de aprender será o excluído das boas universidades, dos bons empregos, do acesso às conquistas civilizatórias. Será alvo fácil de discursos vazios e fake news. Daí por que se impõe fazer as vezes do deus Jano. A divindade romana tem duas caras. Uma olha para trás. Faz o balanço do que passou. A outra olha para a frente. Mira o futuro.

Profissões desapareceram e desaparecerão. Outras surgirão. É para esse mundo em transformação, cujo limite constitui uma incógnita mesmo para a ficção científica, que a educação precisa se voltar. E, de olhos no porvir que bate à porta, habilitar meninos e meninas, rapazes e moças para o que vem. Se frustrar as expectativas, estará superada. Será cadáver insepulto.

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