Diario de Pernambuco
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Opinião
Esportes, lágrimas e literatura

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 06/08/2019 03:00 Atualizado em:

Íamos todos aguardar, no final da manhã do sábado, o documentário que Beatriz Castro preparara sobre Raimundo Carrero, e do qual esta cronista participara, dando um testemunho sobre esse nosso colega e grande romancista. Acontece que havia um importante jogo de vôlei feminino, o Brasil jogava contra... perdão, erro imperdoável, esqueci contra quem. E como alguns milhões de brasileiros, nós todos torcemos pelas meninas nossas representantes, enquanto aguardávamos. E, de súbito, me veio a imagem de um tempo outro, de um Recife outro, quando os principais colégios femininos da cidade cultivavam o vólei, anualmente disputavam o título de campeão, e torcedores vibravam. Em certo ano, o torneio decisivo se daria entre os times do Colégio Agnes e a Escola Normal, o atual  Instituto de Educação. Por 24 anos o Agnes fora possuidor do título, as equipes se sucediam, e toda sexta-feira os pesados portões do conceituado internato para moças, se abriam, sob os olhares vigilantes das missionárias americanas, para receber, pasmem, coisa inconcebível, times masculinos, escolhidos a dedo evidentemente, entre eles aqueles dos seminários Batista e Presbiteriano, e o chamado Cometa, formado por rapazes da sociedade, e de uma mesma família residente na Estrada de Belém, em antigo casarão em meio a enorme sítio.  Aconteceu que naquele ano, Miss Boyce, a diretora do Agnes, conhecida no Recife pelo rigor, eficiência e amor com que administrava o colégio, estava muito doente, seu vulto alto e esbelto não estaria do lado da torcida, como sempre. Minha irmã Denise, que fazia parte do time, era levantadora para Letícia, a capitã, me contou – eu era uma menina – como antes de saírem para a disputa, Miss Boyce reunira o grupo e fizeram uma oração, o nome do colégio estava em evidência, jogassem o melhor, e professor Maurício Wanderley, o vice-diretor, as acompanharia. Sem Miss Boyce, pulando e gritando ao lado da quadra, o time entristecido, jogou mal, Gizete, Gilvane, sempre excelentes, agora irreconhecíveis, não conseguiram se impor ao adversário, chefiado por uma moça alta, de longas tranças, Rosa, Ribemboim se não me engano, que conheci mais tarde sob o sobrenome prestigioso de Lispector. A derrota não foi muito feia, mas a perda do título de bodas de prata do Agnes, provocou lágrimas. No dia seguinte, em vez de celebrar a vitória da Escola Normal, grandes manchetes nos jornais do Recife: Choraram as garotas do Agnes. Pois é, naquele tempo, a cidade inteira participava desse entusiasmo colegial e se comovia por tragédias menores do que as de hoje. Mas voltando ao começo desta crônica: o jogo da equipe brasileira extrapolou o horário previsto, o documentário sobre Raimundo Carrero acontecerá no sábado próximo, naquele espaço reservado à vida literária do Recife, final de manhã, outrora ocupado por Ariano Suassuna. Até lá, então.

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