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Opinião
Epopeia do delegado

Vladimir Souza Carvalho
Presidente do TRF5
OPINIAO.PE@DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR

Publicado em: 29/08/2019 03:00 Atualizado em: 29/08/2019 09:16

Eu o encontrei na comarca na condição de delegado, numa época em que os bacharéis em direito, bem apadrinhados, conseguiam nomeação para o cargo de delegado. Ele, um deles. A princípio, sua conversa me impressionou, na citação de termos jurídicos, conceitos de segurança pública, prestação jurisdicional, etc. Depois, bem, depois, adentrei na floresta de seus atos e a impressão inicial minou, a começar pelo receio que tinha de ser assassinado, a partir das 18 horas, se trancando em casa. Não adiantava bater à sua porta que ele não atendia.

Um preso importante, ligado a crimes de velhas datas, escoltado pela Polícia Militar baiana, chegou à cidade. Seria interrogado, como foi, no dia seguinte. O soldado, na delegacia, não o recebeu. Só faria com ordem do delegado, que, por seu turno, não abria a porta mais. O preso foi levado à pensão, onde eu me hospedava, à época. De manhã, ele, a escolta, e eu tomamos café juntos, embora em mesas diferentes.  

Depois, me veio às mãos, num inquérito policial, o relatório, subscrito pelo delegado, com uma joia a merecer referência expressa. O caso se centralizava na troca de tiros numa rua, na porta de um imóvel residencial. Atiraram, da rua, para amedrontar o seu morador, presa afinal perseguida, tendo ocorrido resposta imediata, numa troca de tiros que durou mais de meia hora. No meio dos tiros, um atingiu o veículo do morador, estacionado à frente da casa. O delegado anotou: o veículo foi ferido. Não havia referência a ter ocorrido sangramento, nem do carro ter sido levado ao hospital.

Outra, se retrata na briga de dois vizinhos em decorrência de um filhote de porco, ou seja, de um porquinho. Ambos criavam porcos no quintal. Um dos animais cruzou com a porca do vizinho. Os dois se consideravam donos do filhote. A discussão atracou na delegacia. O delegado, sabiamente, como sábios eram todos eles, naquele tempo, mandou submeter os três porcos a um exame de sangue.

Exonerado a pedido de desconhecidos, colocou os móveis na carroceria de um caminhão, e, no meio deles, foi embora, acenando para o povo. Foi, ali, seu último ato.

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