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Opinião
Doenças e literatura

Meraldo Zisman
Médico psicoterapeuta

Publicado em: 26/08/2019 03:00 Atualizado em: 26/08/2019 08:54

Dizem ser a doença a musa inspiradora dos escritores! Apesar de afirmarem ser a arte literária destilada a partir da dor e do absurdo, tenho minhas dúvidas quanto à essas assertivas, no tocante ao discurso poético ou à narrativa ficcional.

Textos com valor literário somente podem ser produzidos quando o "aparelho mental" do escritor está em equilíbrio. Jamais soube da possibilidade ou, muito menos, testemunhei um artista em crise paranoica ou com dores atrozes produzindo obras de arte. Há muita fantasia na relação da doença com o trabalho criativo.

O poeta Manuel Bandeira foi desenganado aos 18 anos com o diagnóstico de tuberculose e interrompeu o curso de Arquitetura em São Paulo para se internar em sanatórios. Porém, afirmar que a inspiração poética de Bandeira nasceu nesses momentos de reclusão e ócio forçado, da proximidade com a morte, da percepção de que cada segundo pode ser o último; escrever que a inspiração decorria do fato de o poeta ser celibatário; e terminar por afirmar que a doença que o assolava foi a sua fiel e única companheira, é forçar por demais a barra - apesar de a tuberculose, antes do advento da moderna terapia, ter sido, no início do século passado, um mal estigmatizado e sem esperança de cura. Bandeira viveu até os 82 anos.

A tuberculose permeou a vida de escritores notáveis: Álvares de Azevedo, Castro Alves, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Anton Tchekhov, Lord Byron, Robert Louis Stevenson e outros mais. De forma mais ou menos explícita, todos eles manifestaram nos seus trabalhos o significado agudo da passagem da vida quando se tem uma doença grave.

A epilepsia foi outro mal que influenciou a obra de alguns dos maiores expoentes da arte da escrita. Fiódor Dostoiévski. O escritor russo criou dois personagens epiléticos: Kirilov, de Os demônios (1872), e o príncipe Michkin, de O idiota (1869). Através deles, Dostoiévski descreve a aura estática, fenômeno visual presente em algumas formas do distúrbio.

Entre nós, Machado de Assis sofreu durante todo o seu período produtivo de convulsões e, em especial, no fim de sua vida, quando elas se tornaram mais frequentes. Machado é a figura mais emblemática do estigma duplo: preconceito racial e epilético (a epilepsia era, na época, erroneamente associada a uma personalidade criminosa). É fato que muitas de suas obras primas, como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), O alienista (1882), Quincas Borba (1891, Memorial de Aires (1908).), foram baseadas em temas médicos, mas seria forçar a barra afirmar que foram inspiradas nas doenças. Os artistas são inventivos por que são.  Associar Lite ratura com doença é pura invencionice.

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