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Opinião
Editorial Credibilidade embaçada

Publicado em: 12/08/2019 03:00 Atualizado em: 12/08/2019 09:43

Os dados do mercado, que servem de base para o monitoramento da atividade econômica pelos dirigentes do Banco Central, são muito claros tanto para o governo quanto para a sociedade. As oscilações no valor dos ativos e no câmbio levam à tomada de medidas pelos responsáveis pela condução das políticas econômica e monetária. Não há autoridade superior para avaliar os números e definir o que pode ser anunciado. A transparência é inquestionável, o que confere credibilidade, mesmo que os números suscitem leituras e avaliações distintas..

O patrimônio natural do país é um grande ativo. Se mal gerido, os prejuízos poderão ser tão grandes quanto os que ocorreriam se a equipe econômica de plantão ignorasse o que ocorre no mercado ou ficasse de braços cruzados ante a desvalorização de moeda nacional. Seria o mesmo que quebrar o leme e deixar a embarcação à deriva.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), captados por satélites, revelaram que em julho último a área desmatada na floresta amazônica foi de 2.254,8 km contra 596,6 km em igual mês do ano passado, ou seja, um aumento de 278%. Em 12 meses — entre agosto de 2018 e julho último — a área total de desflorestamento chegou a 6.833 km, ou 33% a mais do que ano anterior.

A divulgação dos dados pelo site do Inpe irritou o presidente Jair Bolsonaro. Em vez de usar a informação para eventuais correções da política ambiental, ele desqualificou o instituto, uma instituição reconhecida internacionalmente que reúne especialistas altamente qualificados. As declarações do presidente foram rebatidas pelo diretor Ricardo Galvão, físico e engenheiro premiado. Dia 7 último, o especialista foi exonerado. O embate repercutiu negativamente na imprensa nacional e internacional.

Para o presidente, dados como aumento do desmatamento são negativos e ferem a imagem do país. Ele reafirma o seu interesse em expandir as fronteiras agrícolas e explorar os minérios em terras indígenas situadas na Amazônia. A repercussão foi ainda pior. A expectativa era de que, ante o aumento da derrubada de florestas, o governo anunciasse medidas para conter a perda do patrimônio natural, com enorme potencialidade e ainda não estudado pela ciência. A preservação da floresta em pé é entendida pelos 195 países signatários do Acordo de Paris, inclusive o Brasil, como essencial entre as medidas para conter a emissão de gases de efeito estufa. Não fosse essa riqueza, dificilmente o Brasil teria o protagonismo que conquistou na construção do acordo.

A partir de agora, os dados do Inpe só serão divulgados após passarem pelo crivo do presidente Bolsonaro. A decisão embaça a credibilidade das informações que venham a ser divulgadas. Coloca em xeque política ambiental brasileira, hoje focada no perímetro urbano. Trata-se de providência que trafega na contramão dos acordos internacionais assinados pelo Brasil em relação ao meio ambiente. Não impede a degradação do patrimônio natural, ameaça real que deve ser combatida pelo poder público.

A mudança chega embalada em propostas que ameaçam e reforçam o preconceito em relação aos povos originários e tradicionais da floresta, o que depõe contra o país, que se destaca pela pluralidade étnica e cultural. Soma para desgastar a imagem do Brasil no exterior, o que pode significar perdas financeiras importantes para a economia nacional, quando grande número de empresas e investidores buscam dar um rótulo verde aos produtos e empreendimentos. A construção de políticas públicas se faz com dados técnicos, capazes de orientar um desenvolvimento sustentável da nação, considerando os valores compatíveis com o século 21.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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