Diario de Pernambuco
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Opinião
Casarão, patrimônio arqueológico no Agreste de Pernambuco

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 30/08/2019 03:00 Atualizado em: 30/08/2019 09:16

Na fazenda Cachoeira do Taepe o casarão, pela ação do tempo e do vandalismo, vem sendo depredado, arrancadas janelas e portas, tábuas do soalho, buracos nas paredes. Doeu-me vê-lo naquele estado. Quando pequena ouvia estórias contadas: Era uma vez: - Em um pé de serra, final do século 17 levantaram uma casa com material encontrado dentro do terreno: taipas, estacas, varas e barro, amaciado pelas mãos dos escravos. A propriedade surgiu do regime sesmaria que consistia em terras que os reis de Portugal cediam para o cultivo. Recebeu esse quinhão, a família Arruda: José Francisco Travassos de Arruda, o benefício logo incorporado à pequena propriedade, para agricultura de subsistência e pecuária. Aos poucos a casa foi se tornando um casarão, desafiando a arquitetura de então. Esse foi o mundo do coronel José Francisco de Arruda. Do Taepe fez o cenário da sua vida.

De remotas imagens da Fazenda Cachoeira do Taepe quando menina nos meus cinco anos, com meus pais e irmãos, passamos uns dias no Taepe, tomando banho de cachoeira, montando nos carneiros mansos. Algum tempo depois já adolescente, com minhas primas voltamos à fazenda, curiosas por rever as dependências do casarão, subindo e descendo escadas, até o grande salão dividido em duas moradias. Uma para passar o inverno, outra, com muitas janelas para o verão. Ficamos escolhendo em qual delas dormiríamos aquela noite. Nada escapava aos nossos olhos curiosos. Em uma parede vimos o retrato em envelhecida moldura, de um senhor, chefe de numerosa família. Vestia fraque, colarinho duro, corrente de ouro atravessando o colete, presa ao relógio de algibeira. Não havia dúvida, era o retrato do venerado José Francisco Travassos de Arruda, meu tataravô e das minhas primas, Terezinha, Luisa e Mariínha. O casarão da Fazenda Taepe, cuja arquitetura ímpar foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ao longo do tempo, foi morada de algumas gerações dos Arruda. Os irmãos do meu pai, os tios Armando e Jerônimo Cavalcanti de Arruda tio Geni, adepto de cavalgadas, derrubadas de bois, realizadas no Taepe, passou a fazer parte do calendário das concorridas festas de vaquejadas da cidade de Surubim. Por coincidência, dia 2 de setembro próximo na Academia Pernambucana de Letras, nossa presidente Margarida Cantarelli abrirá a sessão, anunciando o tema: História da Vaquejada de Surubim, um Debate para o Futuro. Palestra do historiador surubinense, meu amigo Fernando Guerra, com a coordenação do também surubinense o admirável escritor José Nivaldo Junior, meu companheiro na APL. entre outros, o jornalista e poeta José Dodó Felix, meu amigo, editor da página Panorama Bom-jardinense.

Continuando a nossa viagem, deixamos o Taepe. O carro vencendo as ladeiras margeadas de plantas nativas, entrelaçadas aos escassos canaviais. Com alegria, chegamos à acolhedora casa-grande do Engenho Passassunga, sempre ocupada pelo Dr. Manuel Tertuliano Travassos de Arruda que ali morou desde bacharel, ocupou a Promotoria Pública, exerceu o cargo de deputado provincial, e secretário do Império. Ao deixar a magistratura dedicou-se à cultura canavieira. A casa-grande de Passassunga, tombada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, sempre aberta às grandes recepções, aos amigos, magistrados e familiares. Meu pai, Manuel Cavalcanti de Arruda, seu neto, adolescente, entre os tios adultos, tocava trombone, fazendo parte da Banda de Música composta pelos filhos do Dr. Arruda. Todos uniformizados com os seus instrumentos, animavam a festa do Pátio, com mastro altaneiro, onde tremulava a bandeira com a imagem de São Sebastião, padroeiro do Engenho, da Igreja, do cemitério, onde o Dr. Arruda queria ser enterrado. Foi casado duas vezes. A primeira com Flora Gonçalves Lins, avó do meu pai, seu neto mais velho. Era irmã do coronel Joaquim Gonçalves, chefe político da cidade de Bom Jardim. Do 2º casamento, entre outros filhos, o poeta Pedro Arruda Xisto, morando em São Paulo, seria depois Adido Cultural do Brasil no Canadá. Vinha a cidade de Limoeiro rever parentes. Vinha a Bom Jardim visitar o meu pai, parecia trazer o frio nos elegantes paletós de lã xadrez. Ambos tinham admiração pelo avô, o Dr. Arruda, falecido aos 74 anos, deixando 21 filhos dos dois casamentos, 47 netos e incontáveis bisnetos. Eu, Marly de Arruda Mota entre eles.

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